Cresce fuga de iraquianos após reforço americano

Total de deslocados internos subiu de 499 mil para 1,1 milhão em 6 meses

James Glanz e Stephen Farrell, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2025 | 00h00

O número de iraquianos que estão deixando suas casas aumentou desde o início do reforço das tropas americanas, em fevereiro, acelerando a partilha do Iraque em enclaves sectários, segundo dados de grupos humanitários. Apesar de algumas evidências de que o reforço das tropas melhorou a segurança em certas áreas, os estudos mostram que a violência sectária continua e as operações militares comandadas pelos americanos provocaram novos conflitos que levaram iraquianos temerosos a abandonar seus lares em proporções muito superiores às que havia antes da chegada das dezenas de milhares de novos soldados. Os dados trazem detalhes sobre o que se conhece como "iraquianos internamente deslocados": os que foram expulsos de seus bairros e procuram refúgio em outros lugares do país, em vez de cruzar a fronteira. O efeito dessa migração é drenar zonas religiosamente mistas no centro do Iraque, enviando refugiados xiitas para as áreas predominantemente xiitas do sul e sunitas para regiões majoritariamente sunitas no oeste e no norte. Embora a maioria dos iraquianos desalojados diga que gostaria de voltar, há poucas possibilidades de que isso aconteça. Uma árabe sunita que foi expulsa do bairro de Dora, no sul de Bagdá, por franco-atiradores xiitas duvida que sua família retorne algum dia para casa, com reforço ou sem reforço das tropas americanas. "Não há maneira de voltar", disse a mulher de 26 anos, que se identificou apenas como Aswaidi. "É uma cidade de fantasmas. As únicas pessoas que ficaram são terroristas." Estatísticas reunidas por um dos dois grupos humanitários, a Organização Iraquiana do Crescente Vermelho, indicam que o número total de iraquianos internamente deslocados mais que dobrou, de 499 mil para 1,1 milhão, desde o início do reforço das tropas americanas. Essas cifras são amplamente consistentes com dados compilados independentemente por um escritório das Nações Unidas especializado em rastrear deslocamentos em larga escala. Esse escritório, chamado Organização Internacional para Migrações, revelou que, nos últimos meses, a taxa de deslocamento dentro da própria Bagdá, onde o reforço se concentrou, aumentou 20 vezes, embora parte do aumento possa resultar do melhor monitoramento, pelo governo, dos iraquianos deslocados da capital. As novas informações sugerem que, embora os ataques sectários tenham diminuído em alguns bairros, o aumento das tropas e os intensos combates que isso provocou são, ao menos em parte, responsáveis pelo que o relatório do escritório da ONU para migrações chama de "pior deslocamento humano" na história moderna do Iraque. As revelações indicam também que a tensão sectária que as tropas pretendiam desarmar ainda é intensa em muitos lugares do Iraque: 63% dos iraquianos pesquisados pela ONU disseram que abandonaram seus bairros por causa de ameaças diretas a suas vidas, e cerca de 25% porque foram removidos à força de suas casas. As mudanças demográficas poderiam favorecer aqueles que gostariam de ver o Iraque dividido em três regiões semi-autônomas: um sul xiita e um norte curdo prensando um território sunita. No geral, a escala dessa migração colocou tanta pressão sobre o governo iraquiano e as agências de ajuda que algumas províncias estão se recusando a registrar novos cidadãos deslocados, ou só aceitam aqueles cujas famílias são originalmente da área. Mas Rafiq Tshannen, chefe da missão da Organização Internacional para Migrações no Iraque, disse que, em muitos casos, a capacidade de famílias aumentadas acolherem parentes deslocados também já se esticou até o limite.

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