Cresce na Europa oposição a ataques ao Afeganistão

A reação contra a estratégia militar norte-americana no Afeganistão já não se limita às manifestações de rua nos países muçulmanos, inclusive entre os tradicionais aliados dos EUA, como o Marrocos. Na Europa, até grupos esquerdistas ligados a governos social-democratas, como França e Alemanha, procuram se distanciar de posições oficiais, unindo suas vozes aos protestos pacifistas contra os bombardeios aéreos que penalizam as populações civis, sem grandes resultados, nessa primeira fase da ofensiva. A contestação ganha terreno mesmo em países mais alinhados com a resposta militar dos EUA, como é o caso do governo da Itália (Silvio Berlusconi encontra-se nesta segunda-feira em visita aos EUA), onde cerca de 200 mil pessoas participaram da marcha de domingo entre Assis e Perugia, denunciando simultaneamente o terrorismo de Osama bin Laden e os bombardeios norte-americanos sobre Cabul. Diversos dirigentes da esquerda moderada italiana, como o ex-primeiro-ministro Massimo D´Alema e Francesco Ruteli, ex-prefeito de Roma, se encontravam no megacortejo. A ex-primeira dama francesa Danielle Mitterrand e outras personalidades européias também marcaram presença. Na França, os verdes, principalmente seu novo candidato à presidência da República, Noel Mamere, escolhido nesta segunda para substituir Alain Lipietz, que foi afastado da corrida presidencial, é o mais crítico à posição norte-americana. Mamere lançou suas flechas contra o posicionamento do governo de Lionel Jospin, do qual seu partido participa. Além dos verdes, os comunistas, outro grupo integrante do governo social-democrata da França, também não escondem seu mal-estar junto a seus militantes. Assumem, porém, uma posição mais discreta do que os verdes em relação à crise. Isso revela a estreita margem de manobra política do governo francês para um eventual reforço ao apoio militar a Washington. Ninguém contesta a necessidade de uma resposta militar dos EUA aos atentados de 11 de setembro, mas são os métodos empregados que estão provocando as mais fortes reações. O editor do semanário Marianne, Jean François Kahn, considera a estratégia utilizada "absolutamente catastrófica". Mesmo considerando justa a reação militar, os EUA estariam cometendo mais um "erro". Aliás, esse é o título de capa da Marianne. A onda de choque se propaga e a reação aos ataques que penalizam os civis pode contribuir para lançar certos povos nos braços dos extremistas. Os intelectuais ligados a ongs tradicionalmente presentes na zona do conflito, "Médicos do Mundo" ou "Médicos Sem Fronteiras", contestam os resultados e não poupam críticas à tentativa norte-americana de conduzir a guerra em duas frentes antagônicas, militar e humanitária. Na Alemanha, o primeiro ministro Gehard Schroeder, encontra-se numa posição igualmente incômoda. Ele tenta convencer a opinião pública de que chegou a hora de manifestar uma "solidariedade ativa" aos EUA, em agradecimento à liberação do jugo nazista e da reunificação de 1990. No entanto, os mais célebres intelectuais alemães têm multiplicado suas declarações contrárias. Entre elas, cita-se o Nobel de literatura, Gunter Grass, de 73 anos, que parece ter reencontrado seu engajamento político do passado para criticar duramente os EUA: "A CIA foi também, na sua prática, uma organização terrorista". Utilizando a fórmula George W. Bush de luta do bem contra o mal, ele prefere acreditar que se trata de uma "guerra do mal contra o mal ". Como Jospin, o chanceler Gehard Schroeder está tendo dificuldade para conter os seus verdes, um componente fundamental de sua maioria governamental e da qual faz parte o ministro do Exterior, Joskha Fisher, representante verde cuja origem foi a esquerda mais extremista alemã. Poucos são os intelectuais que parecem reagir ao antiamericanismo nos meios culturais alemães. Entre eles está o escritor de Berlim Peter Schnneider, que afirmou, em texto recente para o semanário Die Woche: "É preciso uma boa dose de desprezo humano e brutalidade de espírito para dizer às vítimas dos atentados que lamentamos o ocorrido, mas que, no fundo, o que aconteceu não foi totalmente imerecido". Leia o especial

Agencia Estado,

15 Outubro 2001 | 19h22

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