Cresce pressão externa contra Mugabe e Bush ameaça sanções

Eleição foi uma 'farsa que ignorou a vontade do povo do Zimbábue', diz líder americano; ONU condena violência

Agências internacionais,

28 de junho de 2008 | 16h15

O governo dos Estados Unidos irá impor sanções contra o regime do presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, depois da "farsa" do segundo turno realizado na sexta-feira, anunciou neste sábado, 28, o presidente americano, George W. Bush. Em comunicado, Bush afirmou que o segundo turno das eleições presidenciais no Zimbábue foi uma "farsa que ignorou a vontade do povo do Zimbábue."   Veja também: ONU 'lamenta' realização de eleição no Zimbábue Baixa participação e denúncias marcam eleições no Zimbábue Ação de Mugabe intimida exilados no Reino Unido, diz jornal Tsvangirai: de líder sindical a inimigo do regime Mugabe: uma história de três décadas no poder   A comunidade internacional, lembrou Bush, condenou de modo unânime "a impiedosa campanha do regime de Mugabe de violência e intimidação motivadas politicamente", para deixar claro que as eleições de sexta-feira "de modo algum foram livres ou imparciais."   A oposição se retirou da campanha devido à repressão contra os partidários do Movimento para a Mudança Democrática (MDC). Perante o "flagrante desprezo" de Mugabe à vontade popular, indicou o comunicado, Bush deu instruções à secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, e ao secretário do Tesouro do país, Henry Paulson, para que estabeleçam sanções contra o regime "ilegítimo" do Zimbábue e às nações que o apóiam.   O governo dos EUA fará pressões perante as Nações Unidas para a imposição também de sanções internacionais, que incluam um embargo de armamento e a proibição de viajar ao exterior de representantes do regime no Zimbábue, acrescentou Bush.   "Um governo legítimo do Zimbábue deve representar os interesses de todos os seus cidadãos e o resultado das eleições de 29 de março", afirmou o presidente americano. Nesse dia ocorreram as eleições legislativas e o primeiro turno do pleito presidencial no país, vencido pelo opositor.   Segundo Bush, os EUA estão dispostos a apoiar "um governo legítimo" mediante um conjunto "sólido" de ajuda ao desenvolvimento, perdão de dívida e normalização das relações com as instituições financeiras internacionais.   Enquanto isso, e apesar das sanções ao regime, "seguiremos prestando apoio ao povo do Zimbábue mediante a contribuição de ajuda alimentícia a mais de um milhão de pessoas e assistência para a luta contra a aids a mais de 40 mil cidadãos", afirmou Bush.   Tsvangirai venceu o primeiro turno, mas, segundo a Comissão Eleitoral do Zimbábue (ZEC), organismo nomeado pelo governo de Mugabe, não obteve número de votos para uma maioria direta e era necessário a realização de uma segunda rodada.   Comunidade internacional   Na sexta-feira, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) disse lamentar profundamente a decisão do governo do Zimbábue de seguir em frente com a eleição presidencial.   O embaixador americano na ONU, Zalmay Khalilzad, leu uma declaração do Conselho que dizia que todos os integrantes "concordaram que não existiam condições para eleições livres e justas e que lamentavam que o pleito seguiu em frente nestas circunstâncias."   Por outro lado, o documento, que foi assinado por todos os 15 integrantes do conselho, incluindo África do Sul, China e Rússia, não declarou a votação ilegítima por oposição da África do Sul.   Khalilzad acrescentou que o Conselho vai voltar a discutir o assunto nos próximos dias. "Nós já começamos as discussões com alguns colegas sobre uma resolução que imporia sanções apropriadas ao regime, considerando que as condições continuem iguais às registradas atualmente."   Pressões   O ministro do Exterior do Quênia, Moses Watangula, disse que possíveis sanções contra o Zimbábue não devem funcionar. Watangula disse que em vez da aplicação de sanções, Mugabe e a oposição deveriam ser incentivados a conversar.   "A história nos mostrou que elas (as sanções) não funcionam porque a liderança só cava e cava e se sente perseguida", afirmou o ministro queniano, cujo próprio país viveu um período de violência política recentemente, antes de um acordo político ter sido firmado.   "Acho que precisamos incentivar o Zimbábue. O caminho das sanções pode não ser o mais útil. A primeira e mais importante coisa é que o povo do Zimbábue e seus líderes sentem e conversem uns com os outros, em vez de falar uns aos outros."   "Ouvi declarações dos dois lados que eles estão dispostos a conversar. Acho que o importante é em que nível começamos a conversar, com quem e sobre o que", afirmou Watangula.   O ministro queniano fez as declarações durante uma conferência da União Africana no balneário de Sharm el-Sheikh, no Egito. Mugabe deve participar da reunião e, de acordo com o correspondente da BBC em Johannesburgo, o presidente pretende declarar sua vitória antes de deixar o país para o Egito.   O Conselho de Segurança da ONU deve voltar a discutir a situação no Zimbábue nos próximos dias. Porém, diplomatas acreditam que a resistência de África do Sul, China e Rússia torne difícil a adoção de sanções.   Denúncias   Um grupo de monitoramento eleitoral, o Zimbabwe Election Support Network, afirmou que na maioria das áreas rurais, os eleitores foram obrigados a votar na eleição desta sexta-feira. Um jornalista do país disse que milícias leais a Mugabe foram de porta em porta em algumas cidades para coagir as pessoas.   Desde o primeiro turno, o MDC disse que 86 de seus partidários foram assassinados e 200 mil foram obrigados a deixar suas casas pelas milícias leais ao partido governista Zanu-PF.   O governo culpa o MDC pela violência, mas Mugabe sugeriu que negociações com a oposição são possíveis - "se formos vitoriosos, o que acho que seremos". Tsvangirai disse que não haveria possibilidade de haver negociações se Mugabe seguisse adiante com o segundo turno.   Deportações   A África do Sul deportou de volta ao Zimbábue cerca de 450 zimbabuanos nesta madrugada, denunciaram grupos de ajuda humanitária neste sábado. A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), informou que alguns grupos de deportados visitaram seus centros médicos na sexta-feira, dizendo que haviam atravessado a fronteira nos últimos dias pela "instabilidade política e violência política."   Laços de Mugabe e Mkebi   Para o jornal The New York Times, a complexa relação entre Mugabe e o líder sul-africano, Thabo Mbeki, desenvolvida por quase 30 anos, é um fator crucial para entender porque o presidente da África do Sul, escolhido no ano passado por líderes regionais para mediar oficialmente o conflito no Zimbábue, não critica publicamente Mugabe.   A política de Mbeki, tipicamente chamada de "democracia quieta", está construída na leal convicção de que seus laços especiais com Mugabe podem resolver a crise no Zimbábue através de negociações com paciência, dizem seus colegas e cronistas.   Por anos, a África do Sul tentou bloquear uma ação internacional contra o governo Mugabe e, no dia 19, se recusou a cooperar com um esforço americano na ONU para condenar os ataques políticos no país vizinho.     (Com Efe, BBC Brasil, Associated Press e The New York Times)  

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