Fethi Belaid/AFP
Fethi Belaid/AFP

Cresce pressão na Tunísia por saída de premiê

Milhares de jovens vindos do interior protestam em Túnis contra Mohammed Ghannouchi, acusado de montar gabinete com ex-membros da ditadura

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / PARIS

Milhares de pessoas saíram às ruas na Tunísia e na Argélia no final de semana para protestar contra seus governos, enquanto no Egito e na Jordânia a preocupação cresce com a mobilização popular. Os protestos mais veementes foram realizados em Túnis, onde mais de 3 mil jovens pediram a queda do premiê Mohammed Ghannouchi, acusado de ter montado seu gabinete com membros do governo deposto de Zine El Abidine Ben Ali, e violaram o toque de recolher.

A "Caravana da Libertação" teve início no sábado, em Menzel Bouzaiane, a 280 quilômetros da capital, e terminou na manhã de ontem, em Túnis. Durante 24 horas, mais de mil pessoas, a maioria jovens, cruzaram o país a pé ou em automóveis para participar dos protestos diante do gabinete do premiê. Os manifestantes levavam cartazes com dizeres como "O povo vem para fazer o governo cair", além de fotos de Mohammed Bouazizi, jovem que se imolou em 17 de dezembro, dando origem à "Revolução de Jasmim", que resultou na queda do presidente Ben Ali, no dia 14. A caravana teve o apoio do maior sindicato do país, a União Geral dos Trabalhadores Tunisianos (UGTT), que pediu "a dissolução do governo".

Outro oposicionista, o líder do movimento islâmico Ennahda (Renascimento), Rached Gannouchi, exilado em Londres desde 1989, afirmou à revista Der Spiegel que retornará à Tunísia em breve. "Não queremos um regime com partido único, nem instaurar a sharia (a lei islâmica)", garantiu. "O que a Tunísia precisa hoje é de liberdade e de uma verdadeira democracia."

Em resposta aos protestos e à pressão política, o governo provisório anunciou ontem a prisão de três nomes do antigo regime: o presidente do Senado e ex-ministro do Interior, Abdallah Kallel, o ex-conselheiro direto do presidente Ben Ali, Abdel Aziz Ben Dhia, e o proprietário da emissora de TV privada Hannibal, Larbi Nasra, acusado de "alta traição e complô contra a segurança do Estado" ao apoiar Ben Ali. Ainda como desdobramento da revolta popular, a Suíça anunciou ontem o bloqueio dos bens de Ben Ali.

Contágio. No sábado, na Argélia, 42 manifestantes e 7 policiais ficaram feridos em protestos contra o governo de Abdelaziz Bouteflika, no poder desde 1979. A passeata acabou sendo bloqueada antes de partir pelas ruas de Argel até o Parlamento, como previsto. Além da Tunísia e da Argélia, movimentos de contestação se organizam também no Egito e na Jordânia. No Cairo, manifestações estão sendo convocadas em redes sociais na internet para amanhã. O objetivo é questionar o governo de Hosni Mubarak, no poder desde 1981. Em Amã, o partido Frente de Ação Islâmica (FAI), que tem o apoio de sindicalistas e de movimentos muçulmanos, também convocou protestos contra os poderes do rei Abdalá. "Queremos que o chefe da maioria no Parlamento se torne o premiê ou ele seja eleito pelo povo, afirmou Zaki ben Rsheid, membro do partido. Hoje, o premiê do país é escolhido pelo rei.

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