Crescem boatos de renúncia de Menem ao 2º turno

Enquanto o candidato à presidência da Argentina apoiado pelo presidente Eduardo Duhalde, Néstor Kirchner, viaja ao Brasil e Chile com a postura de já ter sido eleito, seu adversário, o ex-presidente Carlos Menem, também do Partido Justicialista, está cada vez mais envolvido na versão de que renunciaria à sua candidatura para não ter de amargar uma dura derrota no dia 18 de maio. Menem vive um isolamento político com o apoio somente dos seus, sempre, fiéis seguidores mas não tem conseguido novos aliados para o segundo turno das eleições. Nem mesmo Adolfo Rodríguez Saá, um dos candidatos peronistas derrotados no primeiro turno, que odeia Eduardo Duhalde, se alinhou com Menem mas também não o fez com Kirchner. Porém, é cada vez maior o número de seguidores de Rodríguez Saá que se inclinam para o lado de Kirchner, apontado pelas pesquisas de opinião como futuro presidente, com uma distância de até 20 pontos de Carlos Menem. O ex-presidente não conseguiu nem mesmo fazer eco às suas ameaças de denúncias de fraude para concretizá-las perante a Justiça e perdeu os prazos legais. Para completar o negro cenário para Menem, seu adversário conseguiu o apoio explicítico não só do principal sócio no Mercosul, mas do presidente que conta com cerca de 80% de imagem positiva junto aos argentinos que dizem "sonhar" com um Lula para a Argentina.Diante deste cenário, dentro e fora do governo e do menemismo, a versão que tem ganhado corpo é a de que Carlos Menem renunciaria à sua candidatura para que não haja segundo turno em 18 de maio, tirando assim a legitimidade de Néstor Kirchner. Se Menem abandonar a disputa antes do tempo, Kirchner seria consagrado presidente com 22% dos votos que obteve no primeiro turno. Neste caso, o ex-presidente poderia desfrutar de um governo questionado por sua legitimidade, cheio de controvérsias e brigas pela governabilidade que ajudariam a esquecer a sua "fuga" do ringue. Para Eduardo Duhalde, a renúncia de Menem seria um prato cheio para a sua vingança contra o ex-aliado que o obrigou também à renunciar, em 1996, ao seu velho sonho de ser o candidato presidencial do PJ porque Menem quis a reeleição. Porém, para seu candidato seria um destastre iniciar o governo com a legitimidade questionada. Para evitar um governo debilitado, onde Duhalde pretende continuar dando as cartas, o presidente iniciou uma estratégia de provocações contra Menem para que ele não renuncie ao segundo turno. Segundo os analistas políticos, os boatos de renúncia (assim como o desmentido) foram divulgados pela própria campanha de Menem para "tatear" a reação de uma decisão desta natureza. Rosendo Fraga, da consultoria Unión para la Nueva Mayoria, acredita que a renúncia de Menem "é possível mas pouco provável" porque ele sabe que "esta é a última oportunidade de chegar à presidência e não vai renunciar à tentar, embora saiba que tem muito poucas chances de ganhar". No entanto, o analista considera que pode existir esta possibilidade porque "já há um antecedente em 98, momento em que Menem buscava a famosa re-reeleição (o terceiro mandato), e Duhalde o desafiou a realizar um plebiscito para consultar à população se estava de acordo. Menem, calculando que tinha grandes chances de perder, o rejeitou e desistiu de sua candidatura".O cientista político Franco Castiglioni não acredita na hipótese de uma desistência de Menem por uma razão: "mantendo os votos do primeiro turno, mais uma porcentagem que haverá de brancos e nulos, teria um resultado aceitável" e não uma derrota esmagadora, como vêm dizendo o governo e as pesquisas. Castiglioni dá outra razão para que Menem não desista: "diante de qualquer investigação judicial que sofra no futuro, algo que não é difícil de ocorrer já que existem inúmeras denúncias contra o ex-presidente, ele poderá resguardar-se dizendo que é um ataque à uma personalidade política que teve o apoio de um terço da população, politizando qualquer investigação", raciocinou.Viagem de KirshnerJá o candidato Néstor Kirchner, iniciará hoje uma viagem de dois dias ao Brasil, e depois ao Chile, para se reunir com os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Ricardo Lagos, em busca de apoio à sua candidatura ao segundo turno das eleições. De fato, em seu encontro com Lula, Kirchner agradecerá o apoio já demonstrado através da oferta de crédito de US$ 1 bilhão de dólares do BNDES para a Argentina. Segundo assessores do candidato que viajará em companhia do ministro de Economia, Roberto Lavagna, que será mantido no cargo em seu eventual governo, Kirchner se comprometerá com Lula a "empreender todos os esforços para consolidar a integração do Mercosul". Prova de sua promessa é a presença de Lavagna durante o encontro, já que o economista foi um dos primeiros negociadores e defensores do Mercosul. Roberto Lavagna tem uma clara política integracionista e pró-Mercosul.

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