Aamir Qureshi/AFP
Aamir Qureshi/AFP

Crescem denúncias de acertos de conta do Taleban com rivais

Apesar da promessa de não haver represálias contra opositores, há relatos de mortes e desaparecimentos

Carlotta Gall, The New York Times, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2021 | 05h00

CABUL - Quando os soldados dos Estados Unidos completarem sua saída do Afeganistão na terça-feira, grande parte da nação se encolherá de medo prevendo as próximas represálias.

Até agora a liderança política do Taleban tem exibido uma imagem de moderação, prometendo anistia para as forças de segurança do governo que depuserem as armas, e até dando garantias por escrito de que os soldados não serão perseguidos, embora reservando o direito de abrirem um processo em casos de crimes graves. Mas surgem cada vez mais notícias de detenções, desaparecimentos e até execuções de autoridades nas mãos do Taleban, que alguns atuais e ex-funcionários do governo descrevem como uma perseguição secreta e às vezes mortal de inimigos do grupo.

“Muita coisa ocorre na clandestinidade”, disse um ex-parlamentar que estava escondido em outro lugar quando militantes do Taleban entraram em sua casa no meio da noite. “Isso é intimidação. Fui ameaçado e minha família está em choque”, disse ele.

O Taleban tomou conta de cidades e distritos, com frequência sem dar um tiro, dando garantias diplomáticas para seus oponentes e a população. Mas os que estão no alto comentado com frequência delegam poderes para subalternos agressivos.

A escala da campanha não é clara, uma vez que ela é conduzida secretamente, e também não se sabe quem da liderança do Taleban autorizou as detenções ou execuções.

O medo entre os afegãos é palpável. Todos, menos os mais jovens, lembram do regime autoritário do Taleban na década de 1990, com suas punições draconianas, os enforcamentos e execuções públicas.

Muitas pessoas buscaram esconderijo, mudaram de local e os números dos seus telefones e cortaram as comunicações com amigos e colegas.

“As pessoas não confiam no Taleban por causa do que fizeram anteriormente”, disse um afegão que trabalhou como tradutor para a missão da Otan e estava entre os que foram evacuados.

Indagações

Organizações de direitos humanos, ativistas e antigas autoridades de governo também lutam para compreender exatamente o que vem acontecendo em todo o vasto e montanhoso terreno do Afeganistão, mas vários membros do governo que permanecem em seus postos disseram estar recebendo apelos cada vez mais inquietos de parentes e conhecidos.

“Ao que parece eles vêm realizando buscas muito ameaçadoras”, afirmou Patricia Gossman, membro da diretoria da Human Rights Watch na Ásia. “É um tipo de comportamento que lembra um Estado policial. A mensagem é muito clara”.

Pessoas que vivem na província de Badakhshan, ao norte do país, foram expulsas de suas casas nos últimos dias e não foram vistas desde então, disse um membro do governo. Existe um padrão de perseguição das forças de operações especiais afegãs e do pessoal e comandos do serviço de Inteligência, conhecidos como unidades 00, e também de chefes da polícia e da segurança por todo o país, ele acrescentou.

O ex-chefe da polícia de segurança na província de Farah, a sudoeste do Afeganistão, foi morto a tiros na sexta-feira na principal estrada que liga Cabul a Kandahar, segundo postagens de ativistas no Facebook. 

Pelo menos uma dúzia antigos dirigentes provinciais do governo de Ghani foram presos pelo Taleban em todo o país, disseram ex-funcionários do governo. O mesmo, segundo testemunhas, teria ocorrido na província de Kandahar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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