Mandel NGAN / AFP
Mandel NGAN / AFP

Crescem dúvidas sobre papel dos EUA na crise venezuelana

A decisão dos venezuelanos de apoiar Maduro levanta dúvida sobre se os assessores de Trump foram vítimas de uma leitura equivocada dos acontecimentos

Mark Landler e Julian E. Barnes /THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2019 | 05h00

Ninguém disse que a mudança seria fácil. Os principais conselheiros do presidente Donald Trump despertaram na terça-feira acreditando que uma rebelião militar na Venezuela naquele dia galvanizaria um levante popular e derrubaria um líder que eles descreveram como um déspota que deve ser substituído.

Mas, no fim do dia, o presidente Nicolás Maduro ainda estava no poder e os conselheiros de Trump cuidaram de culpar Cuba, Rússia e três influentes autoridades venezuelanas, que não conseguiram mudar de lado, por frustrarem seus planos.

A decisão dos venezuelanos de apoiar Maduro – seja porque foram intimidados, fraquejaram ou jamais haviam planejado desertar – levanta dúvidas sobre se os EUA tinham informações errôneas sobre a capacidade da oposição de afastar membros de seu governo.

Também levantou dúvidas sobre se os assessores de Trump foram vítimas de uma leitura equivocada dos acontecimentos, ou se o presidente americano, que segundo autoridades, às vezes excede seus assessores no entusiasmo por forçar a saída de Maduro, possa perder a fé no esforço enquanto a iniciativa se prolonga.

Maduro foi enfraquecido em casa e desacreditado no exterior, mas continua sendo um rival teimoso que não quer renunciar em favor do líder da oposição, Juan Guaidó, reconhecido pelos EUA como o líder de fato do país. Embora o governo tenha tido um começo com segurança na Venezuela, mobilizando dezenas de países contra o presidente venezuelano, os críticos disseram que sua resposta foi se tornando aleatória e caótica à medida que a crise se arrastava.

Assessores de Trump apostaram na convocação de Guaidó de protestos em massa e na deserção de funcionários venezuelanos na terça-feira como um momento decisivo na campanha de três meses para derrubar Maduro. O vice-presidente Mike Pence e o secretário de Estado, Mike Pompeo, tuitaram seu apoio à “Operação Liberdade”, enquanto o assessor de Segurança Nacional, John Bolton, a chamou de “momento potencialmente positivo”.

Trump não mencionou a operação, mas, na terça-feira, atacou Cuba por seu apoio a Maduro, ameaçando atingi-la com um embargo e novas sanções. Funcionários atuais e antigos disseram que ele estava muito interessado em desalojar o líder venezuelano, até mesmo levantando a perspectiva em reuniões privadas de envolvimento militar limitado dos EUA para acelerar esse resultado.

Ainda assim, Trump assumiu o cargo rejeitando as tendências intervencionistas de seus antecessores, e ele disse menos coisas publicamente sobre a Venezuela do que seus assessores, que transformaram a mudança de regime em uma cruzada nas mídias sociais. Bolton tuitou centenas de vezes sobre a crise, gravou vídeos para o povo venezuelano e apareceu quase diariamente em telejornais para discutir o assunto.

Para servir como enviado especial à Venezuela, Pompeo recrutou Elliott Abrams, mesmo que a Casa Branca o tivesse vetado para outras tarefas por causa de suas críticas a Trump durante a campanha presidencial de 2016.

Abrams é conhecido por suas opiniões e experiências neoconservadoras sob o governo do presidente Ronald Reagan, no qual esteve envolvido no plano secreto de fornecer armas aos contras que lutavam contra os sandinistas na Nicarágua, e no governo de George W. Bush, onde ele era um defensor do Guerra do Iraque.

Embora Trump tenha usado uma linguagem pesada com adversários – especialmente o Irã –, ele em geral evitou a tentativa de expulsar seus líderes em favor de seu candidato preferido, acreditando que isso provocaria emaranhados militares caros e fúteis. Ele manteve conversas com Kim Jong-un, da Coreia do Norte, e se ofereceu para falar com os líderes iranianos.

Bolton e Pompeo, em contraste, falaram com frequência sobre a necessidade de Maduro sair e criaram esperanças de que Guaidó estivesse prestes a expulsá-lo.

"Preocupa-me que esse tipo de aumento de expectativas para níveis muito altos seja desgastante – e faça com que o tipo de pressão interna que precisa ser construída fique mais difícil”, disse Daniel Restrepo, ex-consultor da América Latina no Conselho Nacional de Segurança durante o governo de Barack Obama.

Enquanto os dois lados da Venezuela fincavam o pé, os funcionários do governo americano atribuíam a culpa a diferentes pessoas. Pompeo criticou os russos, alegando que eles haviam dissuadido Maduro de embarcar em um avião e fugir do país na manhã de terça-feira antes de os protestos começarem.

Bolton falou sobre o papel de três funcionários: Vladimir Padrino, ministro da Defesa; Maikel Moreno, o juiz  do Supremo Tribunal; e Rafael Hernández Dala, o comandante da guarda presidencial de Maduro. Bolton disse que eles perderiam suas chances de que as sanções do Departamento do Tesouro contra eles fossem suspensas se não honrassem o que disse ser a promessa de se juntar às forças de Guaidó.

Autoridades do Departamento de Estado admitiram que pode levar semanas ou até meses para que Maduro caia. Os Estados Unidos não fixaram nenhum prazo nem avançaram além do aviso do presidente de que a força militar é uma opção. Mas a enxurrada de declarações dos principais assessores de Trump sugere que a Casa Branca é menos paciente.

Trump está sendo estimulado a assumir uma posição agressiva na Venezuela pelo senador Marco Rubio, republicano da Flórida. A deposição de Maduro seria extremamente popular entre a comunidade de exilados cubanos no sul da Flórida, que vê o governo socialista na Venezuela como um representante de Cuba.

O Conselho de Segurança Nacional realizou uma reunião de diretores na quarta-feira para discutir “quais medidas adicionais precisam ser tomadas para acelerar e garantir uma transição pacífica de poder”, disse Bolton. Pompeo chamou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, para advertir Moscou a não interferir na Venezuela.

“A intervenção da Rússia e de Cuba é desestabilizadora para a Venezuela e para o relacionamento bilateral EUA-Rússia”, disse Pompeo a Lavrov, segundo o Departamento de Estado.

A oposição venezuelana pode ter sido a fonte da informação de que os três altos funcionários estavam considerando apoiar Guaidó. Mas a declaração de Bolton na terça-feira, na qual ele repetidamente chamou os três homens pelo nome, foi certamente um movimento levado em consideração, segundo um ex-funcionário do governo Trump.

Bolton defende uma estratégia ambígua para enfraquecer Maduro, disse o ex-funcionário, referindo-se a um episódio recente em que ele rabiscou uma nota sobre o envio de tropas americanas à Colômbia em um bloco amarelo visto por repórteres.

O funcionário disse acreditar que é menos provável que Bolton tenha sido enganado por maus dados de inteligência e mais provável que ele esteja usando essa inteligência para comandar a própria operação de contrainteligência. Ao chamar às falas as autoridades venezuelanas, Bolton pressionaria os três homens a agirem se estivessem planejando apoiar Guaidó ou – se tivessem uma mudança de opinião – para minar a fé de Maduro neles.

O governo tem sido geralmente cético em relação às informações da oposição venezuelana, embora Trump receba alguma informação diretamente de Marco Rubio ou do senador Rick Scott, outro senador republicano da Flórida.

Uma área em que a Casa Branca está em desacordo com a CIA é quanto à avaliação da agência sobre a participação e apoio cubano ao governo de Maduro.

Bolton e Pompeo têm criticado duramente Cuba por seu apoio ao governo venezuelano. Mas a CIA concluiu que Cuba está muito menos envolvida e seu apoio tem sido muito menos importante do que acreditam altos funcionários do governo, segundo um ex-funcionário.

As opções militares não parecem ter sido detalhadas na Casa Branca e, na quarta-feira, os funcionários do Pentágono minimizaram a possibilidade de intervenção. Mas os eventos recentes podem levar o governo a desenvolver possíveis linhas de ação.

Ninguém emergiu mais forte dos eventos caóticos de terça-feira, disseram analistas. Guaidó fracassou em reunir apoio militar para a deposição do governo, mas os militares pareciam neutros ou indecisos, o que enfraqueceu a posição de Maduro. E os EUA parecem estar exaustos com uma transferência forçada de poder, apenas para vê-la se evaporar.

Alguns analistas disseram que, em sua frustração, Pompeo e Bolton revelaram inteligência potencialmente sensível, queimando tais canais. Os comentários de Pompeo sobre as mensagens russas para Maduro podem forçar o líder venezuelano a usar um canal de comunicações mais seguro. E a citação de Bolton sobre os três venezuelanos poderia afastar quaisquer discussões futuras com eles sobre trocar de lado.

“A questão é: para qual objetivo?”, disse Fernando Cutz, ex-diretor sênior para assuntos do Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional do governo Trump. “Teria sido um benefício significativo manter esses canais abertos para que pudéssemos tentar novamente ou apenas obter informações por meio deles.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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