REUTERS/Henry Romero
REUTERS/Henry Romero

Crescimento dos novos meios na América Latina

Em muitos países da região, imprensa tradicional faz um bom trabalho para manter governos sob controle

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2018 | 05h00

Durante os distúrbios na Nicarágua, o presidente Daniel Ortega tentou uma tática que já havia funcionado antes. Em León, reduto do governo, brutamontes leais a seu regime tentaram colocar estudantes universitários em um ônibus para Manágua para ajudar a suprimir os protestos. Os estudantes se recusaram. Eles tinham visto vídeos da polícia batendo em manifestantes e não queriam participar. A resistência, relatada em sites de notícias independentes, inspirou mais protestos.

Depois que Ortega foi eleito, em 2006, ele vendeu metade dos canais estatais de radiodifusão, colocou seus filhos no comando da outra metade e deixou sua mulher (que também é vice-presidente) apresentar-se por 20 minutos ao dia na TV nacional. Mas páginas nas mídias sociais estão cobrindo os protestos, enquanto canais mais estabelecidos, como o 100% Noticias, pararam de se autocensurar. “As pessoas não estão mais interessadas em notícias fornecidas pelo regime”, diz Carlos Fernando Chamorro, dono do Confidencial, um jornal independente.

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Em muitos países latino-americanos, a mídia tradicional fez um trabalho razoável de responsabilizar os governos. Jornais de Brasil, Argentina, Peru e Guatemala investigaram a corrupção e ajudaram a derrubar presidentes e ministros. Na Colômbia, a Semana, uma revista de notícias, tem uma longa tradição de denunciar abusos das forças de segurança. Muitos jornalistas, especialmente em províncias distantes, foram assassinados por seu trabalho, muitas vezes por traficantes de drogas ou outros poderosos locais.

Mas os mercados de mídia da América Latina tendem a ser pequenos e dominados por magnatas com outros negócios, que prezam o bom relacionamento com os governos. Eles estão sendo abalados pela mídia digital. “Sem a necessidade de comprar ou alugar máquinas de impressão, os editores digitais podem começar apenas com o trabalho duro”, diz Janine Warner, da SembraMedia, uma ONG que ajuda jornalistas latino-americanos a se tornarem empreendedores.

Seu diretório lista mais de 770 sites em 19 países que “atendem ao interesse público” e não dependem de uma única corporação ou partido pela receita.

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Nas ditaduras elas são as únicas vozes independentes dos meios de comunicação. Na Venezuela, o Efecto Cocuyo (“Efeito Vagalume”) relata fatos que o regime tenta esconder, incluindo contagens de homicídios e a taxa de câmbio do mercado negro. Em Cuba, empresas iniciantes como El Estornudo (“O Espirro”) e o Periodismo de Barrio, embora cautelosos em questionar a legitimidade do regime, trazem relatos críticos sobre o país.

Em lugares mais livres, os iniciantes estão desafiando o oligopólio tanto quanto o oficialismo. De acordo com a Unesco, na maior parte da América Latina, uma única empresa controla cerca de metade do mercado em cada categoria de mídia. No Chile, duas empresas de jornais, El Mercurio e Copesa, têm mais de 90% dos leitores.

Na Colômbia, três conglomerados têm quase 60% da audiência impressa, de rádio e internet. No México, o governo de Enrique Peña Nieto, cujo mandato termina em dezembro, manteve os jornais e as emissoras de TV tranquilos, comprando muitos anúncios. Concentração e viés provocam desconfiança. Apenas um quarto dos latino-americanos acha que os meios de comunicação são independentes de interesses poderosos, de acordo com pesquisas do Latinobarômetro.

A nova geração de jornalistas produziu alguns “furos” impressionantes. Repórteres do site Aristegui Noticias descobriram alguns dos maiores escândalos do governo de Peña Nieto, incluindo a compra de uma mansão por sua mulher com a ajuda de um empreiteiro. Em abril de 2015, o site informou que a polícia federal havia matado 16 civis em Apatzingán, cidade no centro do México. O jornal Universal teria se recusado a publicar a matéria.

Chequeado tornou-se o primeiro site de checagem de fatos da América Latina, que deixa embaraçadas tanto a esquerda quanto a direita. Segundo ele, a campanha de Mauricio Macri, atual presidente da Argentina, recebeu contribuições de empresas que haviam conquistado contratos com o governo em Buenos Aires, enquanto ele era prefeito. 

O site também revelou que as empresas de construção no centro da investigação de corrupção da Lava Jato, no Brasil, ganharam pelo menos US$ 9,6 bilhões em contratos supervalorizados na Argentina durante os governos de Cristina Kirchner e de seu marido, Néstor Kirchner. Em 2015, o Chequeado foi a primeira empresa de comunicação na América Latina a conferir os fatos de um debate sobre as eleições presidenciais em tempo real. “Nossa meta é aumentar o custo de uma mentira”, diz sua fundadora, Laura Zommer.

No Brasil, a maioria das revelações da Lava Jato foi dada aos principais jornais pelos promotores. Novos meios de comunicação se concentram em temas negligenciados. O Jota disseca o Judiciário. O Nexo é especializado em jornalismo explicativo com gráficos e cronogramas.

A Agência Pública, que se concentra em direitos humanos, revelou abuso de jovens negros nas favelas pela polícia e um acordo secreto entre o governo e empresas de mineração para reter a compensação às famílias de 17 pessoas que morreram depois que uma represa se rompeu, em 2015.

Os iniciantes estão produzindo mudanças. Quando o site Animal Político acusou o ex-governador de Veracruz de desviar milhões de dólares para empresas fantasmas, ele fugiu do México. Depois de uma perseguição de seis meses em pelo menos três continentes, ele foi capturado na Guatemala e aguarda julgamento. As publicações digitais também participaram de uma grande reforma na Argentina. Foi em grande parte graças a seus esforços que um projeto de lei para descriminalizar o aborto foi aprovado no mês passado pela Câmara dos Deputados.

Os “furos” renderam elogios, incluindo uma participação em um prêmio Pulitzer para a Aristegui Noticias e a Connectas, da Colômbia, por seu papel nas reportagens sobre os Panama Papers, que revelaram a evasão fiscal de pessoas poderosas em todo o mundo. Também renderam represálias. Entre os 14 jornalistas assassinados no México, no ano passado, quase todos trabalhavam para estabelecimentos independentes. Segundo quase metade das 100 editoras pesquisadas pela SembraMedia, membros de suas equipes sofreram ameaças ou chantagens, e mais da metade perdeu publicidade.

Mas os iniciantes são financeiramente vulneráveis. Pouco mais de um quarto dos sites pesquisados pela SembraMedia faturou mais de US$ 100 mil em 2016 e metade perdeu dinheiro. Idealistas em relação ao jornalismo, muitos sites ignoram os resultados financeiros. Poucos acompanham quantos leitores possuem ou coletam informações demográficas que os ajudariam a obter publicidade.

Os mais bem-sucedidos tentam conciliar o idealismo com a necessidade de pagar contas. Alguns complementam a receita de publicidade com outras receitas, como subvenções. O Chequeado, que mais do que triplicou seu orçamento desde 2013 para US$ 770 mil, é exigente com os anunciantes, mas recebe dinheiro de ONGs estrangeiras e governos.

La Silla Vacía, a terceira fonte de notícias mais influente da Colômbia, de acordo com pesquisa recente, recebe 57% de sua receita de doações e 28% de publicidade e patrocínios. O restante vem do financiamento coletivo (crowd-funding) e de uma plataforma na qual os acadêmicos podem publicar trabalhos acadêmicos. 

Jornalistas do El Faro, em El Salvador, fundado há 20 anos, recentemente começaram a usar ferramentas como o Google Analytics para entender e expandir seu público. Em dezembro, Natalia Viana, que fundou a Agência Pública há sete anos com um grupo de outras mulheres, reuniu sua equipe para escrever o primeiro plano estratégico do empreendimento.

À medida que os novatos amadurecem, os antigos meios de comunicação estão se tornando cada vez mais parecidos com eles. Parte da receita do Chequeado vem da oferta de cursos de treinamento em verificação de fatos para redações em toda a América Latina. Três sites de checagem de fatos começaram no Brasil nos últimos dois anos, incluindo o Truco, que faz parte da Agência Pública. Seu trabalho, por sua vez, levou gigantes como Globo e O Estado de S. Paulo a criar equipes de checagem de fatos.

A velha e a nova mídia estão colaborando também. Investigações conjuntas e acordos de distribuição tornaram-se comuns. Jornalistas fazem vaivém entre os dois. A Agência Pública, que publica todas as suas reportagens em colaboração com outros grupos de mídia, recebe uma dúzia de reimpressões em média em blogs e jornais como Folha de S. Paulo e Guardian

Essa fertilização cruzada está melhorando o jornalismo latino-americano, mesmo na Nicarágua. O entusiasmo demonstrado por sites independentes forçou as grandes empresas a “começar a fazer jornalismo ou se arriscar a perder espectadores”, diz Chamorro. As empresas iniciantes podem ser pequenas, mas seu impacto é considerável. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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