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Criança morta de Lesbos

A única descoberta de Marx é que a História se repete

Gilles Lapougue, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 05h30

Uma criança morreu afogada às margens da ilha grega de Lesbos, próxima à costa da Turquia. Um passo e mudamos de continente, língua, patriotismo, bandeira, e até mesmo o bom Deus.

Os “atravessadores”, contrabandistas que se encarregam dessa travessia, lotam seus barcos antigos transportando homens, mulheres, bebês, vindos da Ásia e da África, que sonham trocar o inferno dos campos de refugiados sírios pelos paraísos da Europa, repletos de gramados verdes e de cores, ao passo que, na realidade, trocam o inferno por outro inferno.

Ocorre que, no fim do percurso, os barcos mais frágeis afundam. Mas nada de pânico. Os atravessadores conhecem seu ofício. Eles abrem suas barcaças a golpes de machado. O socorro chega de Lesbos. No pânico, os mais fracos se afogam, assim como os pequenos. A criança na praia morreu nesse alvoroço. Sem saber a razão.

Há alguns anos uma outra criança morreu nessas mesmas praias. Seus pais também estavam em busca do paraíso. Karl Marx já dizia: “A história se repete. A primeira vez é uma tragédia, a segunda, uma farsa”. Essa frase me surpreende. Como um gênio como Marx disse tal estupidez? Tenho uma grande admiração pelo filósofo. Mas nesse dia seu cérebro estava em pane. Proponho esta variante: “A história se repete. A primeira vez é uma tragédia, a segunda vez é uma tragédia, a terceira...”. O poeta Arthur Rimbaud, tem uma visão melhor: “Eis que chegou o tempo dos assassinos”.

A única descoberta de Marx é que a História se repete. E ela se repete. Hoje nós, europeus, estamos condenados a fazer desfilar diante das nossas pálpebras fechadas os mesmos rituais, cujas primeiras representações remontam a 2015, quando Angela Merkel salvou a Europa abrindo as portas do seu país e para onde se precipitaram milhões de refugiados africanos e asiáticos. Uma louca sensatez dessa mulher. Sua decisão foi mal compreendida na Alemanha.

Em 2016, houve uma segunda edição da mesma cena, novas negociações entre turcos e europeus. Mais ou menos como em 2015. As conversações envolveram de novo os refugiados. Os campos de imigrantes inflaram rapidamente. Três milhões e meio de pessoas vegetam em condições atrozes. Mas Erdogan não lhes dá a mínima importância. Para ele, esses pobres diabos não são nada. Absolutamente nada. Ou talvez sim.

O fato é que são uma moeda de troca, a mais bela e mais poderosa, como dólares, diamantes, como o Ritz. Pelo menos o equilíbrio geopolítico da Europa oriental estava garantido. E Erdogan respeita sua promessa, retendo na Turquia as multidões de infelizes, pronto para soltá-los o dia em que os inimigos o pressionarem de muito perto. E no aguardo, não modera a sua opressão.

Mas desde alguns dias o castelo de cartas, que é o Oriente Médio, estremece ao mínimo sopro de vento porque Erdogan se lançou numa operação aventureira, talvez muito ambiciosa para a Turquia. Assim, há alguns dias ele vem liberando suas reservas de carne humana. Abre, ou melhor, entreabre seus campos. É por pequenos grupos que ele liberta seus reféns. É preciso que o prazer dure. 

Em que variante da História, segundo Karl Marx, poderíamos classificar o estratagema de Erdogan? É uma tragédia ou uma farsa? E o menino morto na praia de Lesbos, ele se insere nos terríveis cálculos ou será incluído na categoria de “danos colaterais”? Se existe uma vida após a morte e se, do alto do céu onde certamente está, ele vê o que se passa na Terra e deve se perguntar que bobagem pode ter feito, sem saber, para ter merecido a morte. É uma farsa ou uma tragédia? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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