Crianças ainda são recrutadas para guerra, diz entidade

A instituição Save the Children afirmou nesta segunda-feira que crianças ainda são recrutadas para atuar como soldados em pelo menos 13 países do mundo, como Afeganistão e Uganda, mesmo dez anos depois de um acordo internacional para eliminar a prática. A entidade disse que centenas de milhares de soldados mirins estão sendo obrigados a lutar no mundo todo, apesar das diretrizes estabelecidas pelos Princípios da Cidade do Cabo, em 1997, que determinaram a idade mínima de 18 anos para o recrutamento. "A situação ainda é terrível. Centenas de milhares de crianças ainda vivem na miséria devido à associação a grupos e forças armadas", disse a Save the Children num comunicado. "Os soldados mirins são sujeitos a uma intimidação brutal, muitas vezes forçados a cometer atrocidades como ´treinamento´ militar, e depois são usados na linha de frente", afirmou a instituição. Muitas das crianças que são obrigadas a lutar estão na África, sob o controle de grupos rebeldes como o Exército da Resistência do Senhor (LRA), em Uganda -- notório pela captura de milhares de crianças -- ou de milícias como as que estão espalhando o terror no leste do Congo. As crianças são muitas vezes raptadas de suas casas e começam a carreira com trabalhos forçados, realizando saques. Depois, são obrigadas a matar. "Se você não matar, eles matam você. Foi o primeiro assassinato que vi. Aquilo me fez ficar quieto e obedecer às ordens", disse um ex-soldado mirim, Abubakar, que foi obrigado por rebeldes a lutar na guerra civil de Serra Leoa (1991-2002). Abubakar contou à Reuters que matou pela primeira vez aos 13 anos de idade, com um fuzil AK-47. Ele não quis ter seu sobrenome publicado. A Save the Children disse que crianças estão sendo recrutadas para lutar no Afeganistão, no Burundi, no Chade, na Colômbia, na República Democrática do Congo, na Costa do Marfim, em Mianmar, no Nepal, nas Filipinas, no Sri Lanka, na Somália, no Sudão e em Uganda. O Unicef, agência da ONU para a infância, disse em 2003 que cerca de 8.000 soldados mirins do Afeganistão haviam sido informalmente desmobilizados, mas não totalmente reintegrados à sociedade. Os Princípios da Cidade do Cabo foram estabelecidos em um simpósio na África do Sul organizado pelo Unicef. Representantes de quase 60 países reuniram-se na França na segunda-feira para atualizar esses princípios nos chamados Compromissos de Paris, que visa a aumentar o empenho para impedir o uso de crianças em guerra e para reintegrar os soldados mirins. No sul do Sudão, forças do governo estão recrutando crianças de 8 anos, e há mais de 8.000 soldados mirins em grupos rebeldes na África Ocidental. Embora muitas das guerras africanas conhecidas pelo uso de soldados mirins tenham acabado - como as de Serra Leoa e da Libéria -, as crianças libertadas são muitas vezes rejeitadas pela sociedade. "Quero voltar à vida civil porque estou ficando velho ... Mas estou acostumado com esta vida de soldado. Não há mais nada para fazer", disse Abubakar, já perto dos 30 anos. "Dizem que uma vez soldado, sempre soldado."

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