Luis Antonio Rojas/WP
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Crianças armadas entram na luta contra gangues no México

Escalada de violência no estado de Guerrero, em novembro do último ano, fez homens de Ayahualtempa decidirem que era hora de seus filhos pegarem em armas

Redação, The Washington Post

12 de fevereiro de 2020 | 05h00

AYAHUALTEMPA, MÉXICO - Antes de pegar um rifle e se juntar a um esquadrão de crianças armadas, Alex queria se tornar professor. Ele ensinaria qualquer coisa - "o que o diretor pedisse" - porque passar os dias na sala de aula parecia muito bom.

Ele tinha 13 anos, era um bom aluno e tinha uma bicicleta das Tartarugas Ninjas com a qual corria ao redor das meninas durante o ensino médio.

Então, em novembro, quando a violência aumentou nas montanhas do estado de Guerrero, os homens de Ayahualtempa decidiram que era hora de seus filhos pegarem em armas.

Alex recebeu um rifle de caça e foi instruído a aparecer diariamente para treinar como usá-lo na quadra de basquete da vila. Ele e seus jovens amigos, alguns com apenas 6 anos, marcharam e se arrastaram com armas carregadas que tinham quase o mesmo tamanho que eles. Seus uniformes diziam "Polícia Comunitária" em letras amarelas.

Quando os fotógrafos começaram a aparecer, os meninos foram instruídos a cobrir o rosto com lenços. Armar crianças para defender a cidade contra uma gangue violenta não era um golpe da mídia, insistiam os comandantes de Alex. No entanto, se as imagens chamassem a atenção do governo para um lugar que as forças de segurança do México haviam esquecido, seria um triunfo.

Mas os meninos estavam treinando para defender seu povoado ou estavam sendo exibidos na frente de fotógrafos visitantes para enviar uma mensagem ao governo, como um apelo por mais recursos? Às vezes, até Alex não tinha certeza. O que ele sabia era que a arma era pesada, estava carregada e o treinamento parecia real o suficiente para ele.

O pai de Alex, Santos Martínez, olhou para o rosto do filho, tentando avaliar se Alex era maduro o suficiente para se juntar à força.

"Não havia medo nos olhos dele", disse Martínez. "Foi assim que eu soube que ele estava pronto." Alex repetiu as palavras de seu comandante: "Estou me preparando para defender meu povoado".

O México registrou 35.588 homicídios em 2019, um recorde. Foi outro ponto de dados de uma tendência confirmada em Ayahualtempa e em milhares de cidades como ela: todos os anos, não importa quem está no poder, este país se torna mais violento.

Mas a violência assume formas dramaticamente diferentes em todo o México, uma nação fragmentada por guerras territoriais. Na capital noroeste de Culiacán, o cartel de Sinaloa combate as forças de segurança do país com armas de nível militar. Em Ayahualtempa, um povoado com 600 indígenas, a polícia comunitária carrega rifles de caça antigos em sua própria guerra contra um poderoso cartel de drogas chamado Los Ardillos, que controla a cidade vizinha.

Durante anos, Ayahualtempa mantinha sua própria força de defesa, dezenas de homens armados que patrulhavam a região, ocupavam postos de controle e mantinham posições de vigia nos telhados de casas inacabadas. As autodefesas, ou forças de autodefesa, são legais no estado de Guerrero e reconhecidas pelo governo federal.

Mas, no ano passado, o coletivo de autodefesa local, conhecido como CRAC-PF, foi esmagado. Vinte e seis pessoas foram mortas desde o início de 2019 no território da força, que inclui Ayahualtempa e 15 outras cidades. No mês passado, 10 músicos das cidades que viajavam para um show foram baleados e queimados. Um deles tinha 15 anos.

A escola onde Alex estudava está localizada no que é considerado território inimigo, por isso ele parou de frequentá-la.

Bernardino Sánchez Luna, de 48 anos, fundador do CRAC-PF, disse que os líderes conversaram entre si e decidiram permitir que os meninos entrassem na força. Nos últimos meses, o grupo de crianças armadas se tornou mais formal. Agora existem 17 meninos com camisetas iguais. Os menores de 12 anos recebem armas de brinquedo feitas à mão, enquanto os mais velhos carregam rifles de verdade.

"Se o governo não pode protegê-los, eles precisam ser treinados para se defender", disse Sánchez Luna.

Alex tinha visto as fotos dele, com o rifle na mão, publicadas em jornais do México. Era um tipo estranho de fama. Ele nunca havia saído do estado de Guerrero, e agora seu rosto estava nas bancas da capital. Seu comandante insistiu que fazia parte da estratégia.

Ele percebeu que os líderes do CRAC-PF começaram a receber jornalistas locais, que tiraram fotos dos meninos durante as sessões de treinamento. Ele ouviu Sánchez Luna falar sobre como a mídia poderia ser usada como uma ferramenta para transmitir os problemas da região - suas demandas pelos governos estaduais e federais. Aquele era um território que havia sido ignorado por décadas, mas seria difícil não repararem uma força de crianças armadas.

Quando um correspondente do Washington Post chegou a Ayahualtempa nesta semana, as suspeitas de Alex haviam aumentado.

"Esses jornalistas como você vêm, mas eu não sei de onde eles são", disse ele. "Como posso confiar neles?"

Ele estava sentado no meio-fio do lado de fora da pequena loja de conveniência de sua família, onde trabalha no caixa agora que não está mais na escola. Ele mantinha o uniforme e o rifle atrás de uma pilha de garrafas plásticas de Pepsi. O treinamento começaria às 17h.

Sánchez Luna insistiu que os meninos não estavam sendo usados como uma ferramenta para atrair a atenção da mídia ou do governo. Mas ele admitiu que, quando os jornalistas estavam na cidade, realizou sessões de treinamento mais cedo, pois fotógrafos e cinegrafistas reclamaram que os exercícios noturnos eram escuros demais para serem registrados. Ele também chamou a mídia de "uma arma importante para nós".

Após uma enxurrada de notícias nos meios de comunicação mexicanos, o CRAC-PF publicou uma lista de 29 demandas para o presidente do México, que iam desde maior segurança à instalação de um caixa eletrônico. O presidente Andrés Manuel López Obrador se interessou por Ayahualtempa depois de ver imagens das crianças armadas na mídia.

"Dar armas às crianças e gravar vídeos é um ato de crueldade", disse ele na semana passada.

Mas, apesar dos comentários de López Obrador e da condenação do UNICEF, as crianças continuam armadas e o governo não tentou intervir. O governador do estado de Guerrero concordou em enviar uma patrulha policial para a área. Mas isso significava pouco para o povo de Ayahualtempa, incluindo Alex, que agora assistia, com o rifle na mão, aos oficiais fortemente armados passarem pela rua.

"Também não podemos confiar neles", disse ele.

Na manhã de quarta-feira, Alex e seu pai deixaram sua casa para o principal posto de controle da vila, uma barreira em cadeia que marcava a divisão entre Ayahualtempa e Hueycantenango, que consideravam território inimigo.

Eles andaram lado a lado, cada um segurando um rifle.

"Homem para o bunker," disse Martínez.

Alex então se direcionou para trás de uma barreira de pneus e concreto, com a mão direita perto do gatilho da arma. Ele usava um par de sandálias quebradas, os pés às vezes escorregavam enquanto caminhava.

Foi um momento que obscureceu a missão das crianças armadas. Os líderes da força disseram que Alex e os outros meninos estavam apenas "em treinamento", mas, naquele instante, ele parecia estar dando proteção para o pai. Ou aquela também era uma tentativa elaborada de atrair cobertura pelos meios de comunicação e assim chamar a atenção do governo para um lugar que havia sido abandonado? Era difícil dizer.

"Não sei como eles podem chamar a atenção do governo fazendo esse tipo de coisa - ou morrendo, e até isso só chamará a atenção das autoridades por alguns dias", disse Chris Kyle, antropólogo da Universidade do Alabama, em Birmingham, que tem como foco de estudo o estado de Guerrero.

No México, surgem histórias de grupos de autodefesa que recrutam crianças a cada poucos anos. Assim como relatos de cartéis de drogas que recrutam crianças são ainda mais comuns. Mas raramente se vê um grupo que deixe tão explícito esse reforço. Outro líder do CRAC-PF de Guerrero, Gonzalo Molina González, comparou as crianças ao Niños Héroes do México, os heróis populares adolescentes que morreram tentando repelir a invasão americana da Cidade do México em 1847.

No posto de controle, Martínez se recusou a baixar a corrente para um motorista de caminhão. "Eles poderiam trabalhar para Los Ardillos", ele murmurou baixinho.

Alex estava atrás do bunker, observando seus ex-professores caminharem em direção a escola que frequentava quando criança. Já o colégio do qual era aluno até pouco tempo, Escuela Secundaria Tecnológica Cuauhtémoc 121, ficava a apenas 200 metros de distância, mas do outro lado da corrente. Alguns meses atrás, ele viu como um integrante do CRAC-PF carregando lenha foi baleado e morto a alguns metros da escola.

Pouco tempo depois, a família decidiu que era muito perigoso para ele continuar indo às aulas. Eles temiam que alguém de Ayahualtempa pudesse ser alvo.

A irmã mais velha de Alex, Erica, se recusou a parar de ir à escola. Ela fugiu para a casa de uma tia. A mãe deles está dividida. "Quero que meus filhos frequentem a escola, mas não se isso significa que suas vidas estão em risco", disse Justina. "Todo dia eu me preocupo com minha filha."

O professor de Alex visitou a casa da família esta semana para pedir aos pais que o enviassem de volta à sala de aula. Martínez disse que recusou.

"Eu disse ao professor: 'Até que o governo forneça segurança, não vou mandar meu filho para a escola'", disse ele. Alex voltou para casa do bunker e largou o rifle no chão. Houve outra sessão de treinamento naquela noite. Mais jornalistas chegaram. E Alex repetiu que estava treinando para defender seu povoado, para se preparar para uma possível invasão. Ele podia sentir-se ficando mais forte e mais capaz.Foi o que lhe disseram e foi nisso que ele acreditou. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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