REUTERS/Noor Khamis
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Crianças concebidas por violência sexual sofrem com rejeição da própria mãe no Quênia

Filhos nascidos a partir de estupros precisam aprender a conviver com a rejeição imediata de sua comunidade e até mesmo da mãe, que às vezes se transforma no principal agente de seus maus-tratos

O Estado de S. Paulo

16 de fevereiro de 2016 | 14h36

NAIRÓBI - "Eu ficaria muito feliz se você morresse. Por que você não morre e me deixa em paz?", disse uma mulher queniana a sua filha, que nasceu como resultado de um estupro ocorrido durante a onda de violência que se seguiu após as eleições de dezembro de 2007 no Quênia.

Brooklyn, que hoje tem 7 anos, é apenas uma das centenas de pessoas impedidas de ter uma vida normal no país em razão do estigma dos abusos sexuais cometidos por simpatizantes dos candidatos que competiram naquele pleito e da indiferença do governo.

O cruzamento de acusações dos dois principais candidatos a presidir o Quênia no final de 2007 suscitou uma onda de violência tribal entre os seguidores de Raila Odinga (da etnia lúo), que se proclamou vencedor, e os defensores do presidente eleito, Mwai Kibaki (quicuio), então acusado de fraude eleitoral.

Um banho de sangue custou as vidas de 1.300 pessoas (muitas delas desmembradas a facadas), forçou 660 mil a fugirem de seus lares e pelo menos 900 mulheres foram vítimas de abusos sexuais, segundo números oficiais.

O número de estupros foi seguramente superior, segundo a ONG Human Rights Watch (HRW), que apresentou ontem em Nairóbi um relatório sobre mulheres, homens e crianças vítimas da violência sexual, e denunciou que este grupo ainda espera receber assistência básica e ser compensado pelo governo.

As mulheres foram violentadas, quase sempre por grupos de homens de tribos rivais, que as penetraram com pistolas, pedaços de pau, garrafas e outros objetos, diante de seus filhos e outros familiares. Os homens também sofreram abusos, alguns foram castrados e outros circuncidados.

Mas há um outro grupo de vítimas que não está em nenhuma lista oficial, porque a maioria não tem certidão de nascimento: os filhos dos estupros que aconteceram naqueles dias.

"Eu trato Brooklyn muito mal. Um dia planejei ir ao mercado de Gikomba e deixá-la ali. Eu a maltratei tanto que ela vai muito mal no colégio e está muito assustada. Tem medo de mim", confessou à HRW E. Adhiambo, uma mulher queniana que foi violentada em dezembro de 2007, quando tinha 17 anos. Como muitas outras mulheres que conceberam nessas condições, Adhiambo não queria ter a sua filha.

"Um dia, você descobre que está grávida porque simplesmente foi votar e exercer seu direito como cidadã. O que você faz?", questionou Jacqueline Mutere, fundadora da organização comunitária Grace Agenda.

Mutere, uma mulher de 47 anos, também custou a aceitar sua filha e finalmente decidiu fundar este grupo para ajudar as mulheres que criam filhos nascidos de estupros. "Ninguém quer ter o filho de um delinquente. Você pensa nas opções que tem e essa opção é o aborto. Mas ele é ilegal no Quênia", ressaltou Mutere.

Algumas vítimas buscam médicos clandestinos nos bairros pobres onde vivem que, em muitos casos, provocam graves incapacidades ou sequelas na mãe.

Quando as crianças nascem, precisam aprender a conviver com o estigma e a rejeição imediata de sua comunidade, sua família e sua mãe, que às vezes se transforma no principal agente de seus maus-tratos. "Comecei a bater nela quando era muito pequena, nem sequer tinha um ano. Mas não me importava", admitiu Adhiambo.

"O relatório da HRW demonstra que a vida das pessoas ficou despedaçada", lamentou Christine Alai, coordenadora do Programa de Violência Sexual em Zonas de Conflito de Físicos pelos Direitos Humanos (PHR). Ela diz que é necessário investigar "a origem das causas que dividem" a sociedade queniana. Para Mutere e outras vítimas daquele inferno eleitoral, essa é "a vida das mulheres no Quênia". /EFE

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