Khaled DESOUKI / AFP
Khaled DESOUKI / AFP

Crianças de rua, vítimas colaterais da pandemia no Cairo

Menores de idade catam lixo dia e noite ou trabalham em estacionamentos, mas frequentavam escola; agora, com estabelecimentos fechados, elas enfrentam mais uma dificuldade

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2020 | 03h00

CAIRO - No Egito, país de 100 milhões de habitantes, onde quase um terço da população vive abaixo da linha da pobreza, as crianças em situação de rua ocupam o menor nível da escala social e estão expostas não apenas ao coronavírus, mas também aos abusos verbais, físicos e sexuais.

A covid-19 avança no país ao ritmo de 900 contágios diários. Desde o início da pandemia, o Egito registrou 84 mil pessoas infectadas pelo novo coronavírus e 4 mil mortes.

As crianças em situação de rua catam lixo dia e noite, trabalham em estacionamentos ou pedem algumas moedas em troca de lenços de papel. Algumas vivem com as famílias nos bairros pobres da capital, outras não têm casa e brigaram com os parentes, mas muitas frequentavam escolas, afirma a pesquisadora Mariam Hichem.

Em 2014, as autoridades calcularam que o país tinha quase 16 mil crianças nas ruas, mas o dado é subestimado, afirma Jonathan Crickx, diretor de comunicação do escritório local do Fundo nas Nações Unidas para a Infância (Unicef).

As crianças em situação de rua geralmente vêm de várias gerações, a maioria delas sem registro no arquivo civil, o que dificulta as estatísticas.

O programa nacional "Atfal Bala ma'wa" ("Crianças sem lar"), iniciado em 2016 com 17 unidades móveis, tem por objetivo "integrá-las e fazer com que abandonem os comportamentos das ruas", explica Mohamed Chaker, alto funcionário do Ministério da Solidariedade Social.

No fim de março, as escolas do Egito interromperam as aulas para lutar contra o vírus. Além disso, a pandemia afeta a ajuda humanitária destinada às crianças. E a recessão econômica provocou uma redução do financiamento das associações, segundo o Unicef. 

Obrigados a limitar suas atividades noturnas, em particular durante o toque de recolher em vigor entre março e junho, as ONGs e o ministério enfatizam os serviços médicos que podem prestar.

No fim de junho, as autoridades decidiram reabrir parcialmente as mesquitas, cafés e restaurantes, centros culturais e suspenderam o toque de recolher. Embora as medidas possam ter beneficiado as crianças, o fechamento de mesquitas fora do horário de oração afetou sua vida cotidiana, afirma Chaker.

Graças às áreas de água acessíveis a todos, estes locais representam pontos vitais para as crianças, já que proporcionam o mínimo de higiene diária.

Em um período de incerteza, os menores de idade são vulneráveis à doença e, com frequência, são alvos de ações das autoridades, afirma Hichemm, que considera limitada a iniciativa "Atfal Bala ma'wa".

O Estado, que se dedica sobretudo a "erradicar o fenômeno", não ajuda realmente as crianças, afirma.

A legislação contra a mendicância as coloca na ilegalidade e a adoção de novas medidas de saúde pode aumentar o risco de detenção, adverte a pesquisadora. / AFP

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