Taos County Sheriff's Office/Handout via REUTERS
Taos County Sheriff's Office/Handout via REUTERS

Crianças famintas em cativeiro nos EUA eram treinadas para atirar em escolas

Documentos apresentados à Justiça pela promotoria apontam que no local foram encontrados um campo de tiro e várias armas

O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2018 | 15h37

O suposto sequestrador encontrado na semana passada com 11 crianças e 4 adultos em um barracão miserável no Novo México treinou pelo menos um dos menores para utilizar fuzis de assalto, o preparando para executar um ataque a tiros a uma escola. A informação consta em documentos apresentados pela promotoria na noite de quarta-feira. 

As crianças, que as autoridades informaram ter idades entre 1 e 15 anos, foram levadas para esse complexo por adultos com o propósito de receber treinamento de armas para futuros atos de violência, reitera os documentos. 

Siraj Ibn Wahhaj, que era procurado sob suspeita de ter sequestrado seu filho de 4 anos, foi preso com outros quatro adultos - um homem e três mulheres - na batida policial realizada por oficiais do Condado de Taos na propriedade localizada no meio do mato em Amalia, Novo México, na sexta-feira. 

Os investigadores encontraram no local quatro pistolas, um fuzil de estilo militar e grande quantidade de munição. 

Promotores pediram a prisão de todos os adultos sem direito à fiança. Cada um deles foi acusado de 11 crimes de abuso infantil. O juiz atendeu ao pedido e manterá o grupo preso. 

Os acusados são Lucas Allen Morten, de 40 anos, que a promotoria alega ser responsável pelo controle da propriedade e por ter ajudado Siraj Wahhaj; Hujrah Wahhaj, de 37 anos, e Subhannah Wahhaj, de 35, irmãs de Siraj; e Jany Leveille, de 35. Acredita-se que as mulheres sejam mães de algumas, não todas, as crianças. 

As prisões marcaram o fim de uma busca de meses pelo menino Abdul-Ghani Wahhaj. A criança não estava entre as 11 encontradas na propriedade. Peritos tentam confirmar se restos mortais de uma criança encontrados no local são de Abdul-Ghani, como suspeitam as autoridades. 

A busca por Abdul-Ghani teve início há nove meses em Jonesboro, Georgia, onde sua mãe denunciou à polícia que seu marido havia levado o menino com ele para um parque e nunca retornou. O menino tinha problemas de formação no cérebro, dificuldade para andar, sofria com convulsões e necessitava de medicação de urgência que seu pai não tinha, como afirmou a mãe à polícia, de acordo com o jornal Clayton News-Daily, em dezembro. 

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Hakima Ramzi registrou um apelo desesperado no Facebook em janeiro sobre o desaparecimento de seu filho. “Ele está doente, ele precisa de seus medicamentos", disse ela através das lágrimas em janeiro. "Ele precisa de tudo. Eu não sei se ele está vivo, ou ele está, bem, eu não conheço sua condição agora. Então, por favor, por favor, eu preciso da sua ajuda para encontrar meu marido e meu filho."

Abdul-Ghani e seu pai foram vistos em dezembro viajando pelo Alabama com várias outras crianças e adultos. Eles se envolveram em um acidente e informaram a um policial que os ajudou que estavam indo para o Novo México acampar. 

Tyler Anderson, um mecânico de 41 anos que vivia perto do barracão, afirmou à agência Associated Press que o grupo chegou ao local no fim do ano. Ele disse que os ajudou a instalar painéis solares, mas perdeu o contato com eles depois disso. 

Autoridades policiais no Condado de Taos disseram ter recebido informações em maio sobre uma criança que havia sido sequestrada por seu pai. O complexo em Amalia chamou a atenção das autoridades policiais que vigiavam o local em conjunto com o FBI e notaram que havia ali um campo de tiro. 

O xerife de Taos, Jerry Hogrefe, disse que o FBI não achava necessário fazer uma busca na propriedade, mas seu escritório recebeu uma mensagem de um detetive da Georgia que dizia ter partido do barracão: "estamos famintos e precisamos de água e comida". 

Após obterem um mandado de busca, os policiais encontraram no local uma cena deplorável, como descreveram: um trailer coberto de plástico cercado de pneus enterrados no chão em uma propriedade repleta de armadilhas, com pregos virados para cima, cacos de vidros e trincheiras abertas. A propriedade era cercada por uma vala de cerca de 30 metros de cumprimento e 2,5 metros de altura. Um pequeno caminhão utilitário estava cheio de roupas e camas improvisadas, segundo os promotores. 

A propriedade estava cheia de lixo não tinha água limpa, eletricidade ou rede de esgoto. Hogrefe descreveu as condições do complexo como "as mais tristes e pobres já vistas" em sua vida. Ele disse que as crianças "pareciam refugiadas de países do terceiro mundo, não apenas sem comida ou água fresca, mas sem sapatos, higiene pessoal e vestidas em trapos sujos".

O pai de Wahhaj, Siraj Wahhaj, é imã de uma mesquita no Brooklyn, no bairro de Bedford-Stuyvesant. "À luz dos eventos recentes, a comunidade Masjid At Taqwa gostaria de pedir a todos que continuem a rezar por nosso Imã e sua família", postou a mesquita no Facebook na terça-feira. 

Em janeiro, em uma postagem no Facebook, o imã disse acreditar que todos no grupo viajavam juntos e pediu que quem os vissem deveriam chamar a polícia. A informação sobre o desaparecimento do menino reverberou entra comunidade de fiéis da mesquita. 

O complexo está localizado na propriedade do casal Tanya e Jason Badger que disse à imprensa ter tentado levar as autoridades ao local para tirar o grupo de lá. / W. POST 

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