Crianças se tornam viciadas ainda no útero

Médicos aplicam morfina nos bebês para aliviar sintomas e vão reduzindo as doses gradualmente

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / MARTINSBURG, EUA

26 Novembro 2017 | 05h00

As crianças são as mais vulneráveis vítimas da epidemia de opioides que assola os EUA, e muitas começam a sentir seus efeitos quando ainda estão no útero. Em Martinsburg, cerca de 20% dos bebês enviados à UTI neonatal do maior hospital da cidade apresentam síndrome de abstinência, índice sete vezes superior ao registrado em regiões nas quais o uso de heroína é menos comum.

Os recém-nascidos expostos a opioides durante a gravidez apresentam sintomas que vão da irritabilidade e hipersensibilidade a sons e luz a tremores e convulsões. “São bebês muito agitados, que não podem ser estimulados”, disse a enfermeira Marissa Long, que há 13 anos trabalha no Berkeley Medical Center, hospital que atende a região onde a cidade está localizada. “Quando eu comecei, víamos um ou outro caso. Agora, é frequente.”

Diretor da UTI neonatal, Pete Yossuck disse que 70% dos bebês internados na unidade precisam de tratamento com morfina via oral. Depois de encontrar a dose que elimina os sintomas, os médicos começam a reduzi-la gradativamente, em um processo que dura 17 dias. Os outros 30% precisam de cuidados para aumentar seu conforto e amenizar a agitação.

“Começamos a ver que esse era um problema real em 2013. De 2014 a 2015, houve um aumento significativo no número de casos”, afirmou Yossuck. Dados do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) mostraram alta de 300% no número de bebês que nasceram com síndrome de abstinência entre 1999 e 2013 – de 1,5 para 6 em cada grupo de 1.000. A Virgínia Ocidental liderava o ranking, com 33,4 casos para 1.000 nascimentos, três vezes mais que o patamar de 2009. 

Muitos continuarão a viver o drama dos opioides, com o contínuo uso da droga por seus pais ou a morte de um deles ou ambos por overdoses. Os que não ficam órfãos podem ser retirados dos pais por causa da dependência. 

No ano passado, 2.171 menores de idade foram afastados de seus pais na Virgínia Ocidental em razão do uso de drogas. O número é mais que o dobro do registrado em 2006. Parte das crianças é criada pelos avós, mas muitas ficam com pais adotivos. 

Em relatório apresentado em agosto à Assembleia Legislativa, o secretário da Saúde, Bill Crouch, disse que o Estado lidera o ranking nacional dos casos de afastamento de menores de seus pais, 80% dos quais provocados pelo uso de opioides. 

“Muitas crianças na Virgínia Ocidental estão sendo criadas por pessoas que não são seus pais”, afirmou Kevin Knowles, diretor do Centro Comunitário de Recuperação do Condado de Berkeley, onde fica Martinsburg, no qual vivem 112 mil pessoas. No local, há uma grande árvore de Natal na qual estão pendurados dezenas de cartões com nomes ou fotos dos que morreram de overdose. “Há poucos meses, uma menina de 10 anos pediu que eu colocasse na árvore a foto do pai, vítima da heroína.”

Paramédicos que atendem chamadas de emergência no condado relataram que a presença de crianças em cenas de overdose é uma das situações mais difíceis que enfrentam. Samantha Dixon lembrou que atendeu um caso no qual a ligação para o serviço de emergência foi feita por um menino de 9 anos. 

Com a disseminação do uso da droga, os paramédicos sofrem os efeitos da epidemia em suas vidas pessoais. Bobi Jo Swartz disse que no mais recente encontro de sua turma de colegial, 12 ex-colegas estavam ausentes. Eles sucumbiram a doses fatais de opioides.

Há um ano, o primo com o qual cresceu morreu de overdose. “Ele tinha dores no pescoço e começou tomando pílulas. Daí, foi para a heroína. Ele não conseguia vencer, mesmo tentando reabilitações. No fim, perdeu essa batalha, como muitos outros.” Ryan Barry disse que atendeu duas chamadas de overdose nas quais as vítimas eram pessoas com quem havia estudado. Ambas morreram.

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