AP Photo/David J. Phillip
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Crianças separadas nos EUA tiveram registro apagado

Por extravio ou falta de documentos, filhos de imigrantes passam por exames de DNA antes de rever seus pais; há 100 menores de 5 anos

Caitlin Dickerson / The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2018 | 05h00

Diante do prazo imposto pela Justiça para reunir as famílias separadas na fronteira dos EUA com México, autoridades americanas solicitaram voluntários para examinar os registros e vêm recorrendo a testes de DNA das crianças para ver se correspondem ao de seus pais. Das 3 mil crianças ainda sob custódia, cerca de 100 têm menos de 5 anos e teriam de ser devolvidas até terça-feira. As maiores terão de ser unidas aos pais até o dia 26. O governo pediu uma ampliação do prazo.

 A separação de famílias, parte das medidas agressivas adotadas pelo governo Trump para conter a imigração ilegal, resultou em confusão, pois as autoridades estão pressionadas política e judicialmente a reunir as famílias. O anúncio na quinta-feira de que seriam usados testes de DNA para confirmar os vínculos familiares levou advogados de imigrantes a protestarem, dizendo que os registros poderiam ser usados para rastrear imigrantes ilegais por tempo indefinido.

Em alguns casos, registros que comprovam o vínculo das crianças com os pais desapareceram ou foram destruídos, segundo dois funcionários do Departamento de Segurança Interna, deixando os encarregados com a tarefa difícil de identificar o parentesco entre os membros da família.

O trabalho é complicado pelo fato de que duas agências federais cuidaram da detenção e guarda dos imigrantes e inicialmente não compartilharam os registros. Na sexta-feira, a direção do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), que ficou com a guarda das crianças e agora está encarregada da reunificação, pediu ajuda aos trabalhadores da saúde pública federal para a realização de uma extensa pesquisa manual dos registros.

Segundo a agência, é necessário rever os documentos originais de todas as crianças sob custódia federal “para verificar se aquelas que estão em nossos abrigos estão separadas dos pais”. Isso envolveu rever os documentos de 12 mil crianças para determinar quais foram separadas dos pais pelas autoridades e as que chegaram aos EUA sem um dos pais ou outro parente.

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Alerta. A tentativa apressada para confirmar as identidades, os locais e os vínculos familiares deixa claro o que os advogados de imigrantes disseram desde o início, alertando para as potenciais dificuldades da política de tolerância zero adotada pelo governo Trump. As medidas foram anunciadas praticamente sem aviso prévio e, aparentemente, sem um planejamento para resolver seus impactos mais abrangentes.

Em entrevistas com funcionários da área federal, advogados que defendem imigrantes e operadores dos abrigos, que estão mais próximos do processo, levantaram dúvidas quando foi afirmado no início que as autoridades federais se responsabilizariam pelos locais em que ficariam os pais e as crianças depois de serem separados.

Na verdade, a agência do HHS encarregada de supervisionar o atendimento das crianças imigrantes, o Office of Refugee Resettlement, realizou os procedimentos, que incluíram pulseiras de identificação, emissão de números de registro e um livro de bordo para manter os registros de pais e filhos reunidos.

Mas essas precauções foram prejudicadas em alguns casos pela outra agência federal que se encarregou da custódia dos imigrantes detidos nas primeiras 72 horas após cruzarem a fronteira, a Agência Alfandegária e de Proteção das Fronteiras.

Em centenas de casos, os agentes apagaram os registros iniciais em que pais e filhos foram listados como uma família, com um “número de identificação familiar”, disseram os dois funcionários do Departamento de Segurança Interna. Como resultado, os pais e as crianças que aparecem nos computadores das agências federais parecem não ter vínculos entre si.

Durante a semana passada, o HHS foi obrigado a realizar um enorme serviço, mobilizando centenas de funcionários federais para cumprir a ordem emitida por um juiz federal em San Diego determinando que todas as famílias separadas com base na medida baixada pelo governo fossem reunidas até o dia 26 de julho. No caso de crianças com menos de 5 anos, o prazo termina na terça-feira.

Alex Azar, secretário da HHS, afirmou na quinta-feira que a agência estava às voltas com 3 mil crianças separadas das famílias, e 100 eram menores de 5 anos, mas as reunificações ocorreriam dentro do prazo determinado.

Ele repetiu o discurso de Trump, que tem isentado o Poder Executivo da culpa pelas separações, pondo a culpa nas políticas e decisões judiciais de anos anteriores que impediam famílias imigrantes de serem mantidas em detenção por longos períodos longos de tempo.

“Qualquer confusão se deve a um sistema de imigração inoperante e às ordens judiciais. Não tem a ver conosco”, disse Azar.

O secretário acrescentou que as medidas não podem ser abreviadas para atender ao prazo determinado pelo tribunal, sublinhando que alguns parentes já foram rejeitados como responsáveis pelas crianças no processo de análise, revelando histórias de crueldade e abuso de crianças.

O anúncio de que serão utilizados testes de DNA para confirmar os vínculos familiares levou advogados de imigrantes a protestarem, dizendo que os registros poderiam ser usados para rastear imigrantes ilegais por tempo indefinido. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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