Crianças-soldados do Iêmen

Um número cada vez maior de jovens se une aos houthis para ganhar dinheiro e sobreviver

ALI AL-MUJAHED &, HUGH NAYLOR, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2015 | 02h03

O filho de 15 anos de Abdullah Ali desapareceu de casa certa manhã há três semanas. Uma semana depois, o rapaz telefonou para sua família apavorada para dizer que havia se juntado aos insurgentes xiitas do grupo Houthi - tornando-se parte do número crescente de soldados menores de idade combatendo na guerra civil do Iêmen.

"Ele é apenas uma criança. Ainda está cursando a nona série", disse Ali, um funcionário público de 49 anos que vive na cidade de Taiz. "Deveria estar na escola aprendendo, não lutando." Centenas e, possivelmente, milhares de rapazes estão combatendo no conflito iemenita, segundo grupos de defesa de direitos e trabalhadores humanitários. Muitos têm idades entre 13 e 16 anos. Especialistas citam a pobreza crescente no país como principal razão para crianças se juntarem a grupos armados.

Os meninos-soldados são encontrados em quase toda facção em luta no Iêmen. Segundo algumas estimativas, rapazes com menos de 18 anos constituem quase um terço da força rebelde Houthi, de aproximadamente 25 mil combatentes.

No ano passado, os houthis avançaram de seus baluartes no norte para o sul, tomando a capital Sanaa e sitiando a cidade portuária de Áden. Desde março, uma coalizão de Estados, principalmente árabes, liderada pela Arábia Saudita, vem lançando ataques aéreos para rechaçar os rebeldes e restaurar o poder do presidente Abd-Rabo Mansur Hadi. Acredita-se que, com a intensificação da guerra, dezenas de crianças teriam sido mortas.

Julien Harneis, o representante iemenita no Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), disse que as facções beligerantes, incluindo a filial da Al-Qaeda no país, e separatistas do sul, parecem estar aumentado o recrutamento de menores, em parte com o oferecimento de dinheiro, refeições regulares e outros benefícios.

"Para aquelas crianças com antecedentes vulneráveis, tornar-se um combatente é visto como um modo de ganhar dinheiro para sobreviver", disse Harneis. "E isso está ocorrendo em todos os grupos, do norte ao sul, em cada canto do país." Comida e combustível tornaram-se escassos para muitos dos 25 milhões de habitantes do Iêmen em razão das batalhas e de um bloqueio aéreo e naval imposto pela coalizão liderada pelos sauditas, segundo a ONU e grupos humanitários. Os tumultos obrigaram a maioria das escolas a fechar as portas, o que, por sua vez, aumentou o número de potenciais recrutas infantis.

Jalal al-Shami, um ativista de direitos humanos no Iêmen que estuda a questão de soldados menores de idade, disse que o agravamento da situação humanitária está obrigando mais famílias a transformar crianças em sustentadores de seus lares.

"Agora, há um problema crescente de pais se recusando a deixar seus filhos retornarem da luta, pois as famílias ficaram dependentes do dinheiro que isso está lhes trazendo", disse Shami. Em alguns casos, um rapaz pode ganhar até US$ 100 por mês - uma quantia considerável num país onde, mesmo antes do atual conflito, metade da população vivia com US$ 2 por dia ou menos.

Shami comentou que os riscos no longo prazo de participarem em combates podem ser especialmente danosos para crianças. Traumas psicológicos podem assombrá-las até a idade adulta, causando depressão e comportamento antissocial, segundo ele.

O uso de soldados infantis começou a aumentar no Iêmen durante uma série de guerras entre o governo e os houthis a partir de 2004. Depois, em 2007, o governo assinou o Protocolo Opcional da Convenção sobre os Direitos da Criança, um acordo internacional que estabelece 18 anos como a idade mínima para jovens serem recrutados ou participarem diretamente em conflitos como soldados. No ano passado, o Iêmen aderiu também a um pacto com a ONU para suspender o recrutamento de crianças pelas Forças Armadas.

Mas, em fevereiro, os houthis derrubaram o governo de Hadi, apoiado pelos EUA. "A ofensiva está levando as forças anti-Houthi - incluindo tribos sunitas no sul e na província rica em petróleo de Marib, que fica a leste de Sanaa - a recorrerem cada vez mais a reforços infantis para contra-atacar", disse Nadwa al-Dawsari, uma especialista em tribos iemenitas.

"Diferentemente de lugares como a África, esta é uma nova tendência no Iêmen", disse Dawsari. O Iêmen é uma sociedade tribal onde a virilidade é, com frequência, associada à capacidade de usar uma arma de fogo. "Historicamente, porém, as crianças não tinham autorização para lutar", acrescentou. "A expansão Houthi está mudando isso."

Mohamed al-Bukhaiti, membro do escritório político Houthi, não negou que o grupo use crianças armadas para funções como operar postos de inspeção. No entanto, ele disse que garotos com menos de 18 anos não tinham permissão para participar de batalhas. "Somos muito cuidadosos quando se trata de recrutar nossos combatentes", disse.

Diplomatas, analistas e habitantes contestam essa afirmação, citando os adolescentes magricelas portando fuzis AK-47 nas linhas de frente por todo o país. Em Sanaa, alguns combatentes jovens disseram que aderiram aos houthis porque seus amigos o fizeram ou porque estavam entediados."Não havia mais nada para fazer", disse Ayman, de 17 anos, que guarda uma instalação militar controlada pelos rebeldes xiitas. Ele disse que ganha cerca de US$ 3 por dia.

Uma mulher conhecida como Umm Kamal disse que foi ao quartel-general houthi em Sanaa, no mês passado, e pediu que seu filho Jamal, de 17 anos, voltasse para casa. Ele havia ingressado na milícia seis dias antes sem sua permissão e estava trabalhando como guarda armado.

"Não é isso que eu quero para meu filho. Ele não será um combatente, pois quero que ele tenha um bom futuro, termine sua educação e viva uma boa vida", disse. Umm Kamal, que não quis dar seu sobrenome, afirmou que os houthis não impediram seu filho de sair.

"No entanto, têm ocorrido ataques com granadas contra casas de alguns pais no sul do Iêmen que não permitiram que seus filhos se juntassem às milícias", disse Lisa Piper, diretora para o Iêmen do Danish Refugee Council.

Ali se pergunta se seu filho Mohamed foi atraído para os houthis por sua mensagem - uma mistura de justiça social, anti-imperialismo e islamismo conservador - ou em razão da situação financeira trágica de sua família. Meses atrás, homens ligados aos rebeldes começaram a recrutar garotos em sua cidade, Taiz, trazendo-lhes a perspectiva de ganhar dinheiro e "se tornar homens no campo de batalha".

Mohamed telefonou para a família só três vezes desde que partiu, segundo Ali. "Ele se recusou a vir para casa e disse que está lutando, pois é sua missão destruir o Estado Islâmico e os takfiris", disse Ali, referindo-se a grupos extremistas sunitas que os houthis consideram inimigos. O próprio Mohamed é sunita, mas seu pai suspeita que ele possa ter sofrido uma lavagem cerebral pelos houthis, que seguem uma ramificação do islamismo xiita.

Ali não tem ideia de onde seu filho está e como contatá-lo. Ele só espera que o jovem Mohamed volte com vida. "A ideia de ele voltar para casa num saco mortuário está nos torturando", afirmou. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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