Crime e castigo

Relacionar os negros à criminalidade pode afetar os conceitos de culpa e inocência

CHARLES , M. BLOW, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2014 | 02h02

Uma das coisas que a decisão do grande júri de Ferguson, Missouri, trouxe novamente à atenção é a dificuldade de manter uma discussão inter-racial sobre o crime e castigo nos Estados Unidos. Isso ocorre em grande parte porque vivemos em mundos completamente diferentes em termos de percepção e de experiência, mundos nos quais expressões como "más escolhas", "responsabilidade individual" e "deterioração da cultura" precisam lutar pela primazia com outras tantas: "desigualdade estrutural", "preconceito sistemático" e "cultura da opressão".

Vejamos o que os dados falam a respeito de nossas distorções de percepção em relação ao crime. Um relatório de setembro da organização Sentencing Project concluiu que "os americanos brancos superestimam a proporção de crimes cometidos por negros e associam essas pessoas à criminalidade". No caso de alguns crimes, o exagero desta avaliação chega até 30%.

Isso é particularmente significativo, pois os americanos costumam superestimar a presença do crime em geral. Como um relatório do Gallup ressaltou recentemente: "Há mais de dez anos, o Gallup vem constatando que a maioria dos americanos acredita que a criminalidade aumentou, embora, na realidade, as estatísticas neste campo mostrem amplamente que a taxa de criminalidade continua caindo ante os picos registrados nos anos 90 e mesmo anteriores".

Se os americanos continuarem acreditando que a criminalidade aumentou e associando os negros à insegurança, evidentemente os confrontos entre a polícia e os negros afetarão os conceitos de culpa, inocência, veracidade e compaixão.

Isso não quer dizer que as estatísticas não afirmem que as taxas de criminalidade são desproporcionalmente elevadas nos bairros das minorias, mas em vez de atribuir este fenômeno a alguma patologia social - o que constitui um comportamento racista - devemos considerar a combinação de raça e concentração da pobreza que afeta todo tipo de coisa, desde escolas mais fracas a menores oportunidades de emprego.

E estas áreas de concentração de pobreza estão crescendo, segundo um relatório do Brookings Institution, de julho: "Com o aumento da pobreza e sua expansão durante os anos 2000, o número de bairros em dificuldades financeiras nos Estados Unidos - definidos como setores censitários com taxas de pobreza de 40% ou mais - cresceram cerca de 75%". E o relatório prosseguia: "A população que vive nesses bairros aumentou por margens semelhantes (76% ou 5 milhões de pessoas), chegando a 11,6 milhões no período 2008-2012".

Por acaso os negros simplesmente preferem viver nesses bairros de pobreza extrema e elevada criminalidade ou essas condições lhes foram impostas pelas gerações durante as quais sofreram uma discriminação pura e simples em termos de habitação e emprego, que foram exacerbadas pela Grande Depressão, que foi desproporcionalmente brutal para os negros?

Por exemplo, como dizia um relatório de 2011 do Center for Responsible Lending: "Os negros e latinos tomadores de empréstimos têm duas vezes mais probabilidade de sofrer o impacto da crise. Cerca de 25% do total de tomadores latinos e negros perderam suas casas em razão das execuções hipotecárias ou são inadimplentes, em comparação com menos de 12% dos tomadores brancos."

Quando a polícia e a Justiça passam a se envolver, o preconceito aumenta. Como noticiou o Washington Post: "Em mais de 75% das cidades nas quais o censo coletou dados, há uma presença da polícia desproporcionalmente branca em relação à população local." É o que ocorre, embora 46% dos brancos e 56% dos negros entrevistados numa pesquisa de agosto do New York Times e da CBS New afirmassem que "a constituição racial do departamento de polícia de uma comunidade deveria equivaler à constituição racial da comunidade como um todo".

A situação continua, em parte, em razão de um círculo vicioso de desconfiança e abuso de poder. Como disse o site International Business Times: "As instâncias encarregadas da manutenção da lei e da ordem são, portanto, frequentemente pressionadas a encontrar candidatos negros. Elas querem preencher os cargos com policiais de todas as procedências, segundo afirmam os especialistas, mas o preconceito cultural os coloca em desvantagem."

Você gostaria de se alistar numa força policial que age de modo opressivo e discriminatório com os membros da sua comunidade? Para alguns a resposta pode ser até sim, para efetuar a mudança ou apenas porque se sentem atraídos pela profissão. No entanto, obviamente, para muitos a resposta é não.

A pesquisa Times/CBS concluiu que 45% dos negros, em comparação com apenas 7% dos brancos, acreditavam ter sofrido algum tipo de discriminação por parte da polícia em razão de sua raça. Até 31% dos brancos reconhecem que a polícia da maioria dos bairros, provavelmente, usará força letal contra um negro.

A conclusão tem fundamento. É muito mais provável que jovens negros, em comparação com jovens brancos, sejam presos por motivos como uso de drogas, embora seu uso seja aproximadamente o mesmo dos brancos.

Esse diálogo é difícil, pois estamos gritando por meio de um abismo de disparidades. A primeira coisa a fazer seria trabalhar para construir uma ponte sobre o abismo e para que o terreno se torne favorável para todos. Isso ajudará a transpor o fosso. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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