AFP PHOTO / Telam / Raul Ferrari
AFP PHOTO / Telam / Raul Ferrari

‘Crime não acabou’, diz argentino que leva nome de sequestradores

José Luis luta há 6 anos para não se chamar mais Segretín, sobrenome do casal que o roubou após o parto, na ditadura

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

02 Julho 2016 | 19h22

BUENOS AIRES - José Luis Maulín concorda que soa a premonição o nome da cidade argentina de 100 mil habitantes em que nasceu, foi sequestrado após o parto, criado por um casal ligado a militares, recuperado pelos pais e agora luta para reconquistar sua identidade.

Apresentado na semana passada pelas Avós da Praça de Maio como o 120.º neto roubado durante a última ditadura (1976-1983) a ter a paternidade real comprovada, sua história surpreendeu ativistas que trabalham no tema há décadas e ainda procuram 400 sequestrados hoje na faixa de 36 a 41 anos. Primeiro, porque sua família biológica está viva. Segundo, porque não há dúvida de que o casal Segretín, que o criou, participou de um sequestro premeditado.

O pai de José Luis, Rubén Maulín, militante comunista do Partido Revolucionário dos Trabalhadores, foi levado de casa por militares em 1976. Grávida de quatro meses, sua mãe, Luisa, foi colocada em prisão domiciliar. Em 26 de março de 1977, o grupo que a vigiava a escoltou para dar à luz em uma clínica da cidade no nordeste argentino. Luisa foi registrada com o nome de quem ficaria com o bebê: Cecilia Góngora Segretín, mulher de José Segretín, casal com amigos na Força Aérea.

“Havia uma certeza de impunidade, de que meu pai nunca mais reapareceria e minha mãe não reclamaria pois era mantida presa em casa, com comida racionada”, diz ao Estado José Luis, pai de um adolescente de 16 anos e uma de 12 que herdaram o sobrenome. Ele tinha 6 anos quando desconfiou que seus traços não se pareciam com seu “apropriadores”, termo usado na Argentina para definir quem, com maior ou menor consciência do crime de origem, ficava com bebês de presos políticos.

Rubén foi solto em 1982. Mesmo após a abertura, no ano seguinte, não era simples procurar a polícia, chefiada ainda por quem havia mantido um centro clandestino de repressão na cidade, a 240 quilômetros do Paraguai e a 220 do Rio Grande do Sul. “Ir à polícia era procurar o inimigo, ninguém acreditaria neles sem um documento. E se simplesmente me agarrassem, seriam eles os sequestradores”, pondera José Luis.

Em 1989, três anos depois da morte de Segretín, Rubén e Luisa procuraram diretamente Cecilia para exigir a devolução do então adolescente. “Cecilia ameaçou meus pais afirmando que eu me suicidaria. A esta altura, sentindo que eles me contactariam, me disse que eu era fruto de uma relação extraconjugal do seu marido com Luisa, que ela tinha me abandonado.”

José Luis permitiu que a família biológica se aproximasse e comparou versões. Sua mulher, depois de lhe dar uma bronca por nunca ter falado de sua suspeita, insistiu para que ligasse para Luisa, assídua em programas de rádio. “Tomei coragem e falei com minha mãe por telefone. Uma hora depois, ele ligou desconfiada, achando que eu era algum torturador fingindo. Tinha medo”, lembra.

O encontro foi armado por meio de um programa de proteção testemunhas que tranquilizou Luisa, em 2009. Um mês depois, José Luis fez o exame de DNA. “Com o resultado na mão, questionei Cecilia de novo e ela repetiu a mentira de que haviam me abandonado. Desde então, nunca mais a procurei. Sei que ela pode ser presa, mas não está certo mentir, manipular e roubar em nome do amor”, diz.

José Luis integrou-se à família biológica, que descreve como “muito unida”, ainda que seus pais tenham se separado no início da busca por ele, nos anos 80. Seu caso é excepcional porque há seis anos ele é chamado pelo sobrenome que detesta. “Não vou me acostumar nunca, é cada vez pior”, reclama.

Ele e as Avós culpam a estrutura precária da Justiça no norte da Província de Santa Fé pela demora de um trâmite que na capital, feito por meio da ONG, é rápido. “É um crime que não acabou. Ainda tenho identidade falsa e meus filhos me perguntam ‘até quando?’”, diz, antes de pedir licença para voltar ao trabalho na panificadora onde há 13 anos faz alfajores e doces. Ele garante que são os mais vendidos da cidade de Reconquista.

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