Crime organizado é doença global de US$ 2 tri

Máfias pagam bilhões em propinas e ameaçam democracias, alerta ONU

Julian Borger, The Guardian, Londres, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 00h00

Centenas de bilhões de dólares são pagos anualmente em propinas a funcionários públicos nos países ricos, indicou o relatório da Federação Mundial das Associações das Nações Unidas, publicado esta semana. O crime organizado internacional é hoje um colosso de US$ 2 trilhões que ameaça perverter a democracia em todo o mundo, colaborando para aumentar os níveis já perigosos de desigualdade global, alerta o estudo, denominado "Situação do Futuro" - uma avaliação da situação global por meio da identificação e análise das tendências internacionais.Embora o mundo esteja ficando cada vez mais rico, o aumento persistente do crime organizado tornou-se uma das mais fortes ameaças ao futuro do planeta, juntamente com o aquecimento global e a escassez de água potável, indicou o relatório. Os ganhos anuais dos grupos criminosos em todo o mundo equivalem quase ao PIB da Grã-Bretanha (e são um pouco maiores que o dobro do PIB do Brasil). Metade dessa soma é usada para pagar propinas, o que tende a tornar parte dos ricos e poderosos ainda mais abastada. As 225 pessoas mais ricas do planeta ganham hoje o mesmo que os 2,7 bilhões de pessoas mais pobres - ou 40% da humanidade -, concluiu o estudo. E, apesar de a democracia estar em ascensão, com quase metade da população mundial vivendo em sistemas democráticos, ela corre o risco de ser demolida pela cultura do suborno. "Isso significa que as decisões de governo podem ser compradas e vendidas", disse Jerome Glenn, um dos autores do estudo. "O que acontecerá se o crime organizado decidir que, em vez de comprar e vender cocaína ou heroína, vai comprar e vender decisões do governo? É uma ameaça à democracia." Contrariamente ao estereótipo da república de bananas, só uma pequena soma do total das propinas políticas pagas anualmente vai para funcionários de governo do mundo em desenvolvimento. O relatório concluiu que "a maior parte das propinas pagas vai para pessoas nos países mais ricos", onde a tomada de decisões é "vulnerável a grandes somas de dinheiro". Grande parte da receita - mais de US$ 520 bilhões - que flui por esse mercado negro mundial provém das falsificações e da pirataria. O tráfico de drogas está em segundo lugar em termos de ganhos, com um rendimento estimado em US$ 320 bilhões. Se comparado, o tráfico humano é um setor pequeno - com cerca de US$ 44 bilhões -, mas, certamente é o mais nocivo. Segundo a ONU, 27 milhões de pessoas são mantidas em regime de escravidão, um número bem maior do que o do auge do comércio de escravos africanos. Hoje, as mulheres asiáticas são a maioria das vítimas. "Está na hora de iniciar uma campanha internacional por uma ação contra o crime organizado transnacional, que cresceu a tal ponto que vem dificultando cada vez mais a capacidade de atuação dos governos", afirmou o estudo, segundo o qual crianças órfãs por causa da aids - entre 13 milhões e 15 milhões, segundo estimativas globais - formarão um gigantesco grupo de peões para os grupos criminosos. "Não há nada impedindo isso", disse Glenn. "Não há nenhuma estratégia global." NÚMEROSUS$ 1 trilhãoé gasto anualmente pelo crime organizado no pagamento de propinas, a maioria a funcionários de países ricos225 pessoas mais ricasganham o mesmo que as 2,7 bilhões mais pobres do mundo US$ 520 bilhõesprovêm de falsificações e piratariaUS$ 44 bilhõessão ganhos com o tráfico humano27 milhões de pessoassão mantidas em regime de escravidão

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