Crimeia, a dias de mudar de dono

CENÁRIO:

Olga Kukhnich*, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2014 | 02h05

A Crimeia está paralisada. A expectativa é pelo inevitável. A anexação à Rússia, considerada ilegítima pela comunidade internacional, é dada como certa. Alguns recebem o fato com alegria. Outros, com raiva. No entanto, há um consenso entre a população: o referendo custou demais para dar errado. Dentro de alguns dias, a Ucrânia perderá o território. A Rússia a anexará temporariamente? Ninguém sabe.

Durante as últimas semanas, a atenção mundial foi atraída para a Crimeia, parte complicada da Ucrânia: república autônoma com cidades diretamente subordinadas a Sebastopol, base da frota russa do Mar Negro. Dentro de poucos dias, a Crimeia se tornará uma nova Abkházia ou Transdniéstria. Certamente, o símbolo do fim das relações amistosas entre Rússia e Ucrânia.

Após a queda do presidente Viktor Yanukovich, os órgãos centrais da Crimeia foram ocupados por pessoas autodenominadas "forças de autodefesa". Um dia depois, o premiê local não reconheceu o governo em Kiev, propôs o referendo e pediu ajuda a Moscou para salvar a região dos nacionalistas ucranianos.

Ninguém sabe quem são eles, mas os russos da Crimeia, graças à propaganda, estão habituados a temê-los. Segundo o censo, os russos são 58% dos 2 milhões de habitantes do território. Nem todos, porém, estão satisfeitos com a intervenção militar. "Não pedimos aos russos para nos defender", dizem, em voz baixa, meus amigos russos da Crimeia. Eles sentem que falar em público já não é seguro. Para ucranianos e tártaros, o referendo ameaça sua permanência na Crimeia. Esses dois grupos representam 35% da população, não se sentem protegidos pelo novo governo e não podem contar com Kiev, que está de mãos atadas.

O cotidiano dos moradores lembra um espetáculo mal encenado, onde atores reunidos no mesmo palco representam diferentes peças simultaneamente. Há quem saúde alegremente o novo governo, alguns se refugiam nos afazeres cotidianos e observam os acontecimentos de longe. Outros protestam. Mas, à medida que os russos avançam, desaparecem ativistas e movimentos sociais. À espera se soma a inquietação e o medo. Apesar das garantias do governo da Crimeia, há mais perguntas que respostas. Espera-se apenas que não haja guerra. Esse talvez seja o único consenso na Crimeia.

*Olga Kukhnich é cientista política e escreveu este artigo para o www.estadao.com.br

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