Robert Ghement/EFE
Robert Ghement/EFE

Crimeia estatizará empresas ucranianas

Controle de fronteiras e substituição de moeda também estão na lista de medidas já organizada pelo governo local e com aval do Kremlin

Andrei Netto, Enviado Especial / Simferopol, Ucrânia, O Estado de S. Paulo

12 de março de 2014 | 23h49

SIMFEROPOL, UCRÂNIA - O referendo ainda não aconteceu, mas já se sabe que ele não será reconhecido pela comunidade internacional. Para o governo da Crimeia, porém, não há tempo a perder. Com apoio de Moscou, tudo já vem sendo preparado para que o controle de fronteiras, a estatização de empresas públicas da Ucrânia e a substituição da moeda local pelo rublo comecem na segunda-feira, primeiro dia da anexação do território à Rússia.

Os preparativos foram confirmados na quarta-feira, 12, pelo vice-primeiro-ministro da Crimeia, Rustam Termigaliev. Segundo ele, o Banco Central da Rússia já prepara um plano para a substituição do hryvnia, a moeda local, pelo rublo, da Rússia. O Ministério das Finanças de Moscou teria prometido um programa de troca de 3 milhões de rublos - € 60 milhões - aos 2 milhões de habitantes da península, dos quais 58% são de origem russa.

Além disso, a estatal ucraniana de energia, a Chornomornaftohaz, e também a companhia ferroviária local devem ser as primeiras empresas a serem desapropriadas por decreto. Com a Chornomornaftohaz também serão transferidos os campos de gás natural no Mar Negro, hoje explorados pela Ucrânia, e essenciais para que o país reduza a dependência energética das exportações de Moscou.

"A transferência está sendo preparada", afirmou Termigaliev, em entrevista a uma emissora de TV da Rússia, referindo-se a "uma série de bens, pertencentes ao Estado ucraniano, que estão localizados no território da Crimeia".

Além disso, milicianos russos e cossacos que defendem a anexação do território por Moscou já realizam o policiamento das "fronteiras" da república autônoma, conforme o Estado verificou. Homens armados e vestindo capuzes bloqueiam estradas da região e fazem uma triagem sobre a quem tem direito de ingressar na Crimeia.

Jornalistas estrangeiros com câmeras fotográficas ou filmadoras, por exemplo, são bloqueados. Triagem semelhante também ocorre no aeroporto de Simferopol, que só recebe aviões vindos de Moscou, e na estação central de trens, onde grupos de milicianos abordam e revistam passageiros de forma aleatória.

Os preparativos para a absorção do território pela Rússia de Vladimir Putin contrastam com a ausência de preparativos visíveis para o referendo. No centro de Simferopol, são raros os pontos de propaganda montados pelos partidários da secessão da Ucrânia. Já os militantes da manutenção do status atual da Crimeia sumiram das ruas, após o desaparecimento de líderes do movimento nos últimos dias.

Em resposta às intenções de Moscou, o presidente interino da Ucrânia, Oleksandr Turchynov, descartou a hipótese de entrar em conflito armado, preferindo se concentrar no reforço da nova linha divisória com a Rússia. "Na fronteira da Ucrânia estão concentradas importantes unidades blindadas", disse o presidente.

Jogo duro

O G-7, grupo de sete potências globais - Estados Unidos, Japão, Canadá, Alemanha, França, Grã-Bretanha e Itália - anunciou, sem surpresas, que não reconhecerá a anexação da Crimeia pela Rússia. "Por todas as razões, não reconheceremos o resultado", afirmou o grupo, em comunicado. O G-7 ameaçou ainda tomar ações concretas contra Moscou. "Se a Rússia continuar suas ações, adotaremos uma ação futura, individualmente ou coletivamente", diz o texto.

A União Europeia chegou a um acordo sobre suas sanções contra a Rússia, que incluem restrições a viagens e congelamentos de bens dos responsáveis pela violação da soberania da Ucrânia. O texto descreve em detalhes as medidas punitivas caso a Rússia não recue e inicie um diálogo com Kiev. Se aprovadas pelos chanceleres da UE, na semana que vem, serão as primeiras sanções impostas pelo bloco contra a Rússia desde a Guerra Fria.

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