Dustin Chambers/Reuters
Dustin Chambers/Reuters

Crimes de ódio contra asiáticos crescem nos EUA, mas acusações são raras

Vários ataques recentes não foram denunciados como crimes de ódio, alimentando protestos e indignação entre muitos asiático-americanos

Nicole Hong e Jonah E. Bromwich / The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2021 | 05h00

NOVA YORK - Numa noite fria do mês passado, um chinês estava voltando para casa perto do bairro de Chinatown, em Manhattan, quando um estranho de repente correu atrás dele e enfiou uma faca nas suas costas. Para muitos asiático-americanos, o esfaqueamento foi horrível, mas não surpreendente. Foi visto por muitos como só o exemplo mais recente da violência racial contra asiáticos durante a pandemia de coronavírus.

Mas o perpetrador, um homem de 23 anos do Iêmen, não disse uma palavra à vítima antes do ataque, disseram os investigadores. Os promotores determinaram que não tinham evidências suficientes para provar a motivação racista. O agressor foi acusado de tentativa de homicídio, mas não de crime de ódio.

A notícia indignou os líderes asiático-americanos da cidade de Nova York. Muitos deles protestaram em frente ao Gabinete do Promotor Público de Manhattan, exigindo que o esfaqueamento fosse denunciado como crime de ódio. Estavam cansados de as autoridades fecharem os olhos para o que consideravam ataques racistas. “Vamos chamar a coisa pelo nome certo”, disse Don Lee, ativista comunitário que falou no comício. “Não são ataques aleatórios. Estamos pedindo o reconhecimento de que esses crimes estão acontecendo."

A manifestação refletiu um debate público sobre como enfrentar o aumento nos relatos de violência contra os americanos de origem asiática, que se sentem ainda mais vulneráveis a cada novo ataque. Muitos incidentes não resultaram em prisões ou não foram denunciados como crimes de ódio, dificultando o levantamento de dados confiáveis sobre até que ponto os asiático-americanos estão na mira.

Essa frustração explodiu em escala nacional esta semana, depois que Robert Aaron Long, um homem branco, foi acusado de atirar fatalmente em oito pessoas, entre elas seis mulheres de ascendência asiática, na área de Atlanta, na noite de terça-feira.

Os investigadores disseram que é muito cedo para determinar o motivo do crime. Após a prisão de Long, ele negou ter preconceito racial e disse às autoridades que disparou os tiros como uma forma de vingança por seu “vício sexual”.

O episódio de Atlanta e outros ataques recentes expuseram questões difíceis sobre a possibilidade de provar motivação racista. Os ataques envolveram vítimas asiáticas? Ou os agressores isolaram propositadamente os asiáticos de uma forma tácita que jamais poderá ser apresentada como prova no tribunal?

Muitos asiático-americanos ficaram se perguntando qual é a influência dos estereótipos culturais que os colocam – especialmente as mulheres – como alvos fracos ou submissos.

Outros incidentes que demonstraram clara motivação racial não resultaram em detenções. A polícia ainda procura um homem que chamou uma mãe americana asiática de “vírus chinês”, cuspindo na criança dela em Queens na semana passada.

Enquanto se desenrola o debate a respeito de como se qualifica juridicamente o preconceito contra asiáticos, a comunidade está lidando com a seguinte realidade: a lei simplesmente não foi pensada para levar em conta muitas das formas de racismo vivenciadas pelos americanos asiáticos.

No Estado de Nova York, para que esses ataques sejam enquadrados como crimes de ódio, os promotores teriam de demonstrar que as vítimas foram escolhidas por causa de sua raça.

Mas comprovar uma motivação racista pode ser particularmente difícil em se tratando de ataques contra asiáticos, dizem os especialistas. Não existe um símbolo do ódio contra asiáticos tão fácil de identificar quanto uma forca ou uma suástica. Historicamente, muitas vítimas de crimes contra asiáticos nos EUA são proprietários de pequenos negócios que foram assaltados, o que complica a questão da motivação.

“No caso dos crimes de ódio contra negros, contra gays ou antissemitas, o protótipo é fácil de reconhecer”, disse a professora de direito Lu-in Wang, da Universidade de Pittsburgh. “Com frequência, são casos mais claros.”

Os americanos asiáticos estão muito divididos em relação a quais seriam as melhores medidas contra a violência, refletindo as amplas diferenças ideológicas e geracionais dentro de um grupo que engloba dúzias de etnias. Há cerca de 1,2 milhão de asiáticos em Nova York, de acordo com dados censitários, o que corresponde a 14% da população da cidade.

Alguns pediram critérios mais rigorosos para a aplicação de acusações de crimes de ódio, com castigos mais duros e mais recursos para que o Departamento de Polícia de Nova York possa investigar ataques contra asiáticos.

Outros se opuseram a essas propostas, dizendo que intensificar o policiamento prejudicaria suas próprias comunidades, aprofundando as tensões raciais e afetando desproporcionalmente as comunidades de negros e latinos que há muito são alvo de um policiamento mais agressivo.

“Raramente vi pessoas socialmente privilegiadas serem acusadas por crimes de ódio", disse Anne Oredeko, procuradora encarregada de supervisionar a unidade de justiça racial do grupo de defensoria pública Legal Aid. “Com frequência, vemos pessoas de cor sendo acusadas de crimes de ódio.”

De acordo com a legislação estadual de Nova York, certas infrações podem ser qualificadas com o agravante de serem crimes de ódio, aumentando a possível sentença. Como prova, os promotores costumam apresentar declarações verbais odiosas ou publicações ofensivas do réu nas redes sociais.

Entre as maiores cidades americanas, Nova York apresentou a maior alta nas denúncias de crimes de ódio contra asiáticos no ano passado, de acordo com análise de dados da polícia realizada por um centro da Universidade Estadual da Califórnia em San Bernardino. Foram 28 incidentes do tipo em 2020, ante os 3 casos registrados em 2019, de acordo com dados do Departamento de Polícia de Nova York.

As autoridades reconhecem que os dados são limitados e imperfeitos. Um projeto de lei em tramitação que deve ser aprovado até junho definiria um sistema mais padronizado para a denúncia de crimes de ódio nos tribunais, na promotoria e na polícia de Nova York.

Stewart Loo, vice-inspetor à frente da força-tarefa de combate a crimes de ódio contra asiáticos do departamento de polícia, disse em entrevista que os americanos asiáticos frequentemente relutam em denunciar crimes por causa de barreiras idiomáticas ou temores de um possível questionamento do seu status de imigrantes. Muitos temem também uma retaliação por parte dos acusados, ou simplesmente querem evitar problemas.

“É um processo muito desmotivador", disse Loo. “Temos que ir à delegacia, conversar com os investigadores, conversar com os promotores.”

No ano passado, os ataques ocorridos em Nova York que foram processados como crimes de ódio tipicamente envolveram pessoas que culparam os asiáticos pela disseminação do coronavírus, ecoando a retórica do ex-presidente Donald Trump, que se referiu à doença como “vírus chinês” e “gripe chinesa".

Uma mulher branca foi acusada de cometer um crime de ódio em março do ano passado depois de esbarrar em uma mulher asiática que atravessava a rua em Manhattan e dizer, “É por sua causa que o coronavírus está aqui", antes de cuspir nela e arrancar parte de seus cabelos, de acordo com a promotoria.


No ataque com faca ocorrido em Chinatown no mês passado, os promotores disseram não haver provas de que o réu, Salman Muflehi, teria escolhido a vítima por ser asiática nem de que teria visto o rosto dela antes de esfaqueá-la. Posteriormente, Muflehi disse à polícia que não gostou do jeito que a vítima olhou para ele.

Muflehi migrou do Iêmen para Nova York quando adolescente. Sofre há anos com graves problemas de saúde mental, envolvendo-se em frequentes brigas e detenções, de acordo com entrevista com o irmão e a mãe dele. De acordo com eles, o réu nunca manifestou um ódio contra asiáticos.

Ele já tinha sido preso por atacar o irmão e o pai. Recentemente, foi indiciado em fevereiro por dar um soco na cabeça de um homem hispânico, de acordo com a promotoria (equivocadamente, reportagens anteriores identificaram essa vítima como asiática).

Muflehi continua preso. Ele é acusado de quatro crimes, entre eles tentativa de homicídio. Se a acusação fosse designada como crime de ódio, a sentença mínima para o caso dele aumentaria de 5 para 8 anos de prisão.

A vítima de 36 anos, cuja identidade não foi revelada ao público, passou mais de duas semanas no hospital, sendo liberada no domingo.

Os investigadores recomendaram que o ataque com faca fosse classificado como crime de ódio, mas o gabinete do promotor do distrito de Manhattan discordou.

A organizadora comunitária Shirley Ng, do bairro chinês de Manhattan, defende o rebaixamento dos critérios para a tipificação de crimes de ódio e a eliminação da possibilidade de fiança, pois, na opinião dela, as autoridades são demasiadamente lenientes diante de casos envolvendo vítimas asiáticas.

“É muito fácil dizer que esses suspeitos sofrem de alguma doença mental", disse Shirley. “Mas, às vezes, eles têm plena consciência de que pretendem ferir outras pessoas.”

Outros dizem que um policiamento mais rigoroso pode resultar em uma rivalidade entre americanos asiáticos e as comunidades de negros e latinos, inflamando as tensões raciais.

Wayne Ho, presidente do Conselho de Planejamento Sino-Americano, uma agência de serviços sociais, disse que muitos de seus colegas asiáticos sofreram abusos verbais durante a pandemia, mas preferiram não alertar a polícia por temer a possibilidade de os acusados, frequentemente pessoas não-brancas, serem maltratados.

“Perguntei a mim mesma, será que quero ver essa pessoa na cadeia?” disse Alice Wong, uma das colegas de Ho. “Colocar alguém na prisão não faz com que a pessoa deixe de odiar os outros.”

Reconhecendo esse desafio, algumas autoridades policiais pediram que aqueles que cometem crimes de ódio sejam encaminhados a aulas antirracistas como alternativa à prisão. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL E RENATO PRELORENTZOU 

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