Crimes em massa

Um jovem vestido de preto entra às 9h30 no colégio Albertville, na periferia de Stuttgart. Tem o rosto descoberto e um revólver na mão. Entra em uma classe e começa a atirar a esmo. Alguns alunos caem baleados. Ele corre para outras classes - outros mortos. Depois, mata um enfermeiro de uma clínica psiquiátrica ligada ao colégio. Em seguida, rouba um carro e foge deixando atrás de si o inferno, o caos. Helicópteros procuram por ele e a perseguição acaba em um estacionamento. Há um tiroteio: mais dois morrem. O assassino, Tim Kretschmer, é abatido por policiais.A cidade de Stuttgart, o Estado de Baden-Würtenberg, a Alemanha, a Europa e o mundo inteiro estão estarrecidos. "Não dá para acreditar", dizem alguns. "É inimaginável." E, entretanto, aconteceu! Não só é algo perfeitamente imaginável, como está se tornando um fato cada vez mais comum. Um horror, mas "um horror banal", como se a loucura, o fascínio pelo ato de aniquilar se transmitisse como um vírus, de uma mente para outra, de cidade em cidade, de país a país.Durante muito tempo, esses massacres foram o apanágio dos EUA. A Europa estava isenta. Sociólogos tinham uma explicação: a violência americana, a venda livre de armas, o "messianismo", que de tempos em tempos se transforma em um "messianismo satânico".Talvez. Mas então será preciso acrescentar que o vírus atravessou o Atlântico e está proliferando na pacífica, velha e sábia Europa. No dia 26 de abril de 2002, na Alemanha, um garoto que havia sido reprovado matou 14 alunos e 3 professores de um colégio de Erfurt. Em 2006, em Emsdetten, também na Alemanha, um estudante feriu 37 pessoas antes de se suicidar. Na Finlândia, próximo de Helsinque, um ex-aluno, Matti Juhani Saari, matou 10 estudantes em 2007, num ataque que preparou durante seis anos. Ele comentou sua ação em um vídeo, gravado alguns dias antes. No mesmo ano, em outro colégio finlandês, um aluno matou seis pessoas.A Grã-Bretanha passou por experiência semelhante em 1996: 16 pessoas assassinadas em Dunblane, na Escócia. Na própria França, em 2002, houve um massacre de oito alunos, em Nanterre. O Canadá viveu um episódio abominável, em dezembro de 1989. Na ocasião, um homem trancou 60 estudantes em uma sala da Escola Politécnica, separando as meninas dos meninos, e gritou: "Odeio as feministas" e matou seis meninas. Escreveu ofensas no quadro negro, depois procurou outros possíveis alvos. Ao todo, assassinou 14 moças e se suicidou.É claro que os EUA foram pioneiros nesses desvios. De 1997 para cá, foram pelo menos 17 massacres: um saldo de 48 mortos. Nos EUA, existe até mesmo um jogo eletrônico, muito procurado, que reconstitui a abominação ocorrida de verdade em Columbine. Devemos citar ainda o Lamer Hunter. Lamer, na gíria americana, é um idiota e precisa ser executado. Uma variante é Don?t kill Keny, no qual o jogador têm de matar todos - com exceção de Keny.* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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