REUTERS/Christian Hartmann
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Criminoso comum atacou avenida, indica investigação

Karim Cheurfi, de 39 anos, tinha histórico de atacar policiais e, segundo vizinhos, fumava, bebia e não tinha hábitos de um radical islâmico

Andrei Netto, Enviado Especial / Chelles, França, O Estado de S. Paulo

22 Abril 2017 | 05h00

Um homem mentalmente desequilibrado, obcecado pela polícia, que já havia cometido uma tentativa de assassinato contra um agente das forças de ordem, é o responsável pelo atentado na Avenida Champs-Elysées, no centro de Paris. As primeiras investigações indicam que o autor do ataque era um criminoso comum reincidente, que tinha muito pouco a ver com o Estado Islâmico – tanto que o grupo teria errado seu nome ao reivindicar a ação. 

Karim Cheurfi, de 39 anos, foi identificado com facilidade pelas forças de ordem por ter utilizado o próprio automóvel, um Audi, para cometer o ataque. A partir da documentação do veículo, agentes chegaram a seu endereço e realizaram uma primeira operação em sua residência, na cidade de Chelles, a 50 quilômetros a leste de Paris, ainda na noite de quinta-feira. 

Ontem pela manhã, agentes da Polícia Judiciária da França retornaram à residência da família, um conjunto de casas humildes construídas em um terreno situado na periferia da cidade, de 50 mil habitantes.

Os agentes estavam em busca de novas informações sobre o criminoso. No veículo e na casa foram apreendidos um telefone celular, um computador, um Alcorão, um documento no qual Cheurfi pede autorização para adquirir armas de caça e um bilhete no qual diz ser membro do grupo terrorista Estado Islâmico.

Vizinhos. No entanto, essa relação com jihadistas ou o EI é contestada por vizinhos de Cheurfi, com os quais o Estado teve contato na manhã de ontem, em Chelles. Um dos moradores da Allée Hervé Legrand, onde vivia o assassino, diz que o criminoso era uma pessoa isolada, sem amigos, que saía muito pouco de casa e era membro de uma família discreta. 

“Não tinha nada de radical islâmico. Era alguém que bebia e fumava, que não fazia orações e ninguém nunca o viu na mesquita”, afirmou o vizinho, que pediu para não ser identificado. “Se houve alguma radicalização, foi pela internet.” 

O certo é que Cheurfi tinha um histórico policial perigoso, que revelava uma obsessão por atingir agentes de forças de ordem. Em 2001, ele foi condenado por três tentativas de assassinato, uma delas por ter atirado em um policial e em seu irmão ao término de uma fuga em um veículo roubado. 

Preso, ele ainda atacou um policial na delegacia de sua cidade natal, Livry-Gargan. Roubou a arma do agente e lhe deu cinco tiros. Em 2005, Cheurfi acabou condenado a 15 anos de prisão, sendo liberado 10 anos mais tarde, em 2015. Sua reaparição nos registros da polícia ocorreu em dezembro, quando ele teria ameaçado mais uma vez matar um policial. Então a Direção Geral de Segurança Interior (DGSI), serviço secreto interior da França, foi informada de seus planos. 

Em abril, Cheurfi chegou a ser detido, mas a Justiça o liberou por falta de provas de que havia um plano concreto de atentado terrorista, nem mesmo elementos que indicassem sua radicalização e sua associação ao Estado Islâmico.

Diante da falha de segurança por parte da Justiça, que liberou um homem considerado perigoso pela polícia, ontem uma ofensiva foi feita pelo Ministério do Interior para buscar eventuais cúmplices do crime. Pelo menos três membros de sua família foram detidos para averiguações na noite de quinta-feira, e a residência da família foi lacrada pelos investigadores.

Crime comum. Um dos pontos investigados diz respeito ao comunicado de reivindicação publicado pelo Estado Islâmico em redes sociais. Minutos após o ataque à Champs-Elysées, o grupo terrorista lançou nas redes sociais uma nota na qual reivindicou o crime informando que Abou Youssouf Al-Belgiki – ou seja, “ o belga” –, suposto autor do atentado, era um soldado do califado. O problema: Cheurfi não era Abou Youssouf, não era belga, mas francês, e jamais viveu na Bélgica. 

A principal suspeita é que o EI imaginou que o ataque havia sido cometido por outro jihadista pronto a agir na Europa, que nem sequer conhecia Cheurfi.

Para Mathieu Guidère, especialista em islamismo radical e em terrorismo global, autor de La Guerre des Islamismes (A Guerra dos Islamistas), de 2017, Cheurfi seria um caso de criminoso comum que adere ao EI em nome da “ tawb” – arrependimento. 

Pregado pelo grupo terrorista, a atitude consiste em cometer um ato extremo em nome da “remissão dos pecados” pregressos. “

Cheurfi é parte de um novo fenômeno: a midiatização que atrai criminosos comuns, já condenados a longas penas, que tentam dar um sentido à sua ação violenta com um verniz político, religioso ou ideológico”, diz. “O crime cometido na Champs-Elysées é antes de mais nada um crime comum.”

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