Crise à francesa

Nicolas Sarkozy tem a pior rejeição de um presidente francês de todos os tempos, mas alguns dados mostram que o país pode ser o único na Europa a destacar-se no futuro

Michel Rocard, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2010 | 00h00

PROJECT SYNDICATE

A França está um caos. Segundo pesquisas de opinião, a popularidade de Nicolas Sarkozy é a menor já registrada por um presidente francês nas últimas décadas. Na semana passada, dois de seus ministros renunciaram, mas a tempestade parlamentar não dá sinais de amainar. Ela é agravada pelas acusações de conflito de interesses contra um ministro suspeito de corrupção durante a campanha de Sarkozy à presidência.

Alguns ministros não se importam muito com a percepção do público quando usam os fundos do Estado, mas é evidente que o clima político está envenenado. No Parlamento, a atmosfera é execrável e poderia ser até suficiente para derrubar o governo com uma moção de desconfiança.

A Constituição aprovada por Charles de Gaulle, porém, é forte e Sarkozy manterá sua posição até o fim do mandato, em 2012. As fracas perspectivas eleitorais do Partido Socialista, o principal de oposição, também são favoráveis ao presidente.

A dimensão da crise política francesa parece desproporcional à real situação do país. Na realidade, a França foi profundamente afetada pela crise financeira global, mas as consequências foram menos dramáticas do que em muitos países europeus.Dois dos três países do Báltico e a Grécia estão mergulhados em problemas financeiros. O mesmo ocorre em Portugal, Espanha, Hungria e Islândia. Bélgica, Itália e Grã-Bretanha ainda estão ameaçadas por um enorme endividamento público e déficits em conta corrente. Holanda, Áustria, Alemanha e França, porém, estão um pouco melhor.

No curto prazo, a situação da Alemanha é menos grave do que a da França. Sua balança comercial é positiva e a dívida pública não é tão grande. Apesar do desemprego e do modesto crescimento, os alemães não enfrentam uma ameaça à estabilidade macroeconômica no curto prazo, embora a população esteja em declínio e registre uma grande proporção de idosos, o que implicará problemas no futuro.

Para a França, a situação no curto prazo é mais preocupante. O déficit fiscal é superior a 6% do PIB, a balança comercial é negativa e a dívida pública, embora inferior à de todos os países europeus - exceto a de Alemanha e Holanda -, chega a 80% do PIB. A França precisa urgentemente de reformas estruturais e, portanto, de um governo forte.

Evidentemente, o comportamento antiético de alguns altos funcionários é inaceitável, mas se o crescimento fosse maior e o desemprego estivesse em queda, esses escândalos não seriam um drama tão grande.

Dois fatores intensificam a pressão sobre Sarkozy. Primeiro, o público está cada vez mais consciente da necessidade de reformas na previdência, saúde e na organização do Estado. Segundo, nas últimas décadas, os franceses se declararam mais pessimistas do que o resto do mundo quando questionados sobre o futuro do país. Na França, a economia de mercado tem uma rejeição maior do que em todos os países da Europa, EUA, Rússia e China.

Mudança. O futuro será mais promissor? Todos os países emergentes responderam que sim. Essa foi também a resposta da maioria nos EUA e na Europa. Na França, porém, a maior parte disse que não. Esse profundo pessimismo exagera a importância da atual crise política. Desde sua criação, na década de 30, os institutos de pesquisa nos EUA, na Grã-Bretanha e na França perguntam sobre a satisfação e as atitudes a respeito do futuro. Inicialmente, os franceses deram a mesma resposta das outras nações. Mas, em junho de 1940, o céu caiu sobre suas cabeças.

O país centralizado e orgulhoso, onde o Estado é mais importante do que em qualquer outra nação e os militares ganharam tantas guerras, testemunhou um colapso de humor no prazo de duas semanas. Um governo não eleito que capitulou diante de Hitler ofereceu um futuro sem perspectivas, quase uma vassalagem.

Os franceses nunca se recuperaram totalmente do trauma. Apesar de um extraordinário renascimento depois da guerra, a derrota moral da elite e a hesitação do sistema político persistem. O profundo pessimismo tornou-se permanente, impasse agravado pelo subdesenvolvimento da sociedade civil da França.

Portanto, são esperados dois choques. Equilibrar os gastos públicos para não prejudicar o crescimento e resolver o drama do desemprego. A Grã-Bretanha e a Alemanha estão atendendo a estes requisitos. A França, conseguirá?

O povo francês, rabugento e intratável, demonstrou que é capaz de despertar. Afinal, o Iluminismo nasceu na França. Depois, vieram a Revolução Francesa, a era napoleônica, a Batalha do Marne, vencida em 1914 graças à iniciativa espontânea, quando governo e Estado fracassavam, e o grande renascimento de 1945-1950.

A França tem também a maior taxa de natalidade de todos os países europeus e é o único que se renova a cada geração. Há 30 anos, não havia uma empresa francesa entre as 100 maiores do mundo. Hoje são 15. O sistema de educação e saúde, apesar das dificuldades, ainda é um dos melhores do mundo. Seus intelectuais e cientistas são criativos e estão entre os melhores. Portanto, não devemos enterrar a França, ainda. Os franceses sofrerão grandes choques nos próximos anos, mas o país poderá ser o único europeu a destacar-se daqui a 30 anos. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É SECRETÁRIO-GERAL DO PARTIDO SOCIALISTA FRANCÊS

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