Crise afeta equilíbrio de poder no Kremlin

Turbulência financeira estabeleceu disputa pelo controle das finanças estatais entre grupos rivais do primeiro-ministro e do presidente russos

Tom Parfitt, The Guardian, MOSCOU, O Estadao de S.Paulo

16 de março de 2009 | 00h00

A crise financeira russa começa a desestabilizar o delicado equilíbrio de poder no Kremlin, com uma luta entre clãs rivais enfraquecendo a autoridade do premiê Vladimir Putin e agravando sua relação com seu protegido, o presidente Dmitri Medvedev, há um ano no poder. Há sinais crescentes de que um conjunto poderoso de militares e autoridades de segurança aliados a Putin esteja disputando com liberais econômicos chefiados por Medvedev o controle das finanças estatais, que estão em queda acelerada.O mercado acionário da Rússia caiu quase 80% em relação ao seu ponto máximo. Só os dez maiores bilionários russos perderam cerca de US$ 150 bilhões no ano passado. A evaporação súbita da recente riqueza da Rússia colocou os dois grupos do Kremlin em rota de colisão. Putin está numa posição incômoda. Como ex-agente da KGB (serviço de segurança da era soviética), ele é identificado com o grupo do serviço de segurança, conhecido como os siloviki, mas também tem uma forte lealdade pessoal a um pequeno grupo de liberais de sua cidade natal, São Petersburgo. Especialistas dizem que surgem fissuras na relação de Putin com Medvedev, com o premiê perdendo força na tentativa de conter o conflito entre as duas facções."Putin costumava agir como um árbitro acima dos dois clãs principais - os siloviki e os economistas racionais", disse o analista político Dmitri Oreshkin. "Agora, ele está sendo arrastado para a luta e sob fogo de ambos os lados. Os siloviki dizem que ele é um fraco incapaz de impor sua vontade e colocar os economistas no devido lugar. Enquanto isso, os economistas estão se consolidando em torno de Medvedev."Medvedev, escolhido a dedo por Putin como seu sucessor entre acólitos leais, começou a emitir críticas veladas a seu mentor, levando alguns a acreditar que está usufruindo das prerrogativas do poder e se preparando para mostrar sua força política. Numa reunião recente com autoridades econômicas, Medvedev disse que as respostas à crise financeira estabelecidas por Putin como chefe de governo estavam "inaceitavelmente lentas".No mês passado, Igor Yurgens, diretor do Instituto de Desenvolvimento Contemporâneo, um novo think-tank criado por Medvedev, criticou Putin por restringir a liberdade de imprensa e ressaltou que "as opiniões mais honestas e independentes sobre os problemas da Rússia estão vindo da ala liberal, e não dos chamados patriotas estatistas.""Medvedev sentiu o cheirinho do poder e gostou", disse Mikhail Delyagin, ex-consultor de política econômica do governo. "Ele deu aprovação tácita para sua equipe entrar numa guerra de informação com o aparelho de Putin."O homem no centro da luta pelo poder no Kremlin é o ministro da Economia Alexei Kudrin, que advertiu os siloviki e as corporações nas quais eles têm interesses de que o Estado está limitando o resgate financeiro para grandes empresas. "Os siloviki estavam acostumados a dividir os espólios do Estado", disse Delyagin. "Eles querem se livrar de Kudrin, que não lhes dá dinheiro."A disputa interna provocou até rumores de que Putin, temendo se tornar um ponto de convergência do descontentamento público, considera a possibilidade de abandonar seu cargo.

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