Crise afugenta voto democrata

Ao tomar posse, Obama subestimou desafios econômicos que EUA enfrentavam e agora seu partido pagará por isso

Paul Krugman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

É isso que ocorre quando precisamos dar um salto para transpor o abismo econômico, mas não conseguimos - ou não podemos - saltar longe o bastante, e acabamos no meio do caminho. Se os democratas obtiverem um resultado tão ruim quanto o esperado nas eleições do dia 2, especialistas rapidamente interpretarão o desfecho como um referendo.

O presidente Barack Obama avançou bastante no sentido da esquerda, dirá a maioria, apesar do seu verdadeiro programa - um plano para o sistema de saúde muito semelhante ao dos republicanos, um pacote de estímulo com base em corte de impostos, ajuda a desempregados e auxílio a Estados - ter sido mais conservador do que sua plataforma eleitoral.

Alguns comentaristas destacarão, com justiça, que Obama nunca defendeu abertamente as políticas progressistas, que ele consistentemente traiu sua própria mensagem. Mas a verdade é que, se a situação econômica fosse mais favorável - se o desemprego tivesse sido reduzido -, não estaríamos agora debatendo essas questões. Em vez disso, falaríamos sobre modestas perdas para democratas, nada além do normal para as eleições legislativas.

Assim, a verdadeira história desta eleição é a de uma política econômica que não cumpriu o esperado. Por quê? Principalmente por ter sido muito insuficiente diante de seus objetivos.

Quando Obama tomou posse, ele herdou uma economia em graves problemas - ao que parece, mais graves do que ele e seus principais assessores econômicos perceberam. Eles sabiam que os EUA enfrentavam uma aguda crise financeira. Mas parece que não aprenderam as lições da história, segundo as quais crises financeiras de grandes proporções são normalmente seguidas por um período prolongado de desemprego altíssimo.

Erro de cálculo. Se olharmos agora para a previsão econômica usada para justificar o plano de Obama, o que mais impressiona é o otimismo em relação à capacidade da própria economia de curar a si mesma. Os economistas de Obama previram que, mesmo na ausência desse plano, a taxa de desemprego chegaria, no máximo, a 9%. Então, cairia rapidamente. O estímulo fiscal era necessário só para aliviar os piores efeitos: uma espécie de "apólice de seguro contra danos catastróficos", como teria descrito Lawrence Summers (posteriormente um dos principais economistas do novo governo) num memorando ao presidente eleito.

Mas economias que passaram por uma grave crise não se recuperam rapidamente. Desde o pânico de 1893 até a crise sueca de 1992, passando pela década perdida japonesa, crises financeiras foram consistentemente seguidas por longos períodos de dificuldade econômica. Para evitar esse destino, os EUA precisavam de um programa muito mais forte do que o aprovado.

Haverá alguma esperança de um resultado melhor? Quem sabe, talvez, os eleitores pensem duas vezes antes de devolver o poder àqueles que nos deixaram nessa bagunça. E um resultado pior do que o esperado para os republicanos nas urnas dará a Obama uma segunda chance de tentar reverter os rumos da economia. Mas, no momento, parece que a tentativa excessivamente cautelosa de saltar por sobre aquele abismo econômico foi insuficiente - e estamos prestes a atingir o fundo do poço. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É ECONOMISTA, GANHADOR DO NOBEL

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