Crise afunda Dubai na decadência

Cidade-símbolo do capitalismo árabe está à beira de tornar-se uma cidade fantasma

Robert Worth, NYT, DUBAI, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Sofia, uma francesa de 34 anos, mudou-se para cá há um ano para assumir um emprego em publicidade. Confiante na economia exuberante de Dubai, comprou um apartamento por quase US$ 300 mil com uma hipoteca de 15 anos.Agora, como muitos trabalhadores estrangeiros que compõem quase 90% da população local, ela foi dispensada e enfrenta a perspectiva de ser obrigada a abandonar o Golfo Pérsico - ou pior."Estou realmente assustada com o que poderia acontecer, porque comprei um imóvel aqui", disse Sofia, que pediu para seu sobrenome não ser divulgado pois está procurando um novo emprego. "Se não conseguir pagar, disseram-me que poderia acabar na prisão para devedores."Com a economia de Dubai em queda livre, os jornais noticiaram que mais de 3 mil carros estão abandonados no estacionamento do aeroporto de Dubai, deixados por estrangeiros endividados em fuga (que poderiam, de fato, ser presos se não pagassem suas contas). Comenta-se que alguns têm cartões de crédito estourados e notas de desculpa pregados com adesivo no para-brisa.O governo diz que os números reais são muito menores. No entanto, as histórias contêm pelo menos uma pitada de verdade: os desempregados aqui perdem seus vistos de trabalho e, então, precisam deixar o país no prazo de um mês.Isso, por sua vez, reduz gastos, cria vacância em moradias e faz baixar o preço dos imóveis em uma espiral descendente que deixou partes de Dubai - que já foi saudada como a superpotência econômica do Oriente Médio - parecendo uma cidade fantasma. Em vez de aumentar a transparência sobre a situação, os Emirados Árabes Unidos (EAU) vão na direção oposta. Um novo projeto de lei sobre a mídia tornaria crime prejudicar a reputação ou a economia do país, punível com multas de até 1 milhão de dirhans (cerca US$ 272 mil). Alguns dizem que isso já está tendo um efeito paralisante sobre o noticiário da crise. No mês passado, jornais locais noticiariam que Dubai estava cancelando 1.500 vistos de trabalho por dia, citando fontes governamentais anônimas. Questionado sobre o número, Humaid bin Dimas, um porta-voz do Ministério do Trabalho dos Emirados, disse que não confirmaria nem negaria, e não quis comentar mais o assunto. Alguns dizem que o número real é bem maior.Algumas coisas estão claras, contudo. Os preços dos imóveis, que subiram dramaticamente durante os seis anos de boom de Dubai, caíram 30% ou mais nos últimos dois ou três meses em algumas partes da cidade. Há tantos carros de luxo à venda que eles, às vezes, são vendidos por 40% do preço pedido há dois meses, segundo revendedores de veículos usados. A maioria das ruas de Dubai, normalmente com tráfego pesado nesta época do ano, agora está vazia.Alguns analistas afirmam que a crise não durará muito nos sete emirados que compõem os EAU, nos quais Dubai sempre fez o papel de irmão mais novo e rebelde que confronta a capital Abu Dabi, rica em petróleo e mais conservadora. O problema é que, até agora, a capital só ofereceu ajuda financeira para seus próprios bancos, ignorando o drama da cidade mais populosa do país.Para muitos estrangeiros, Dubai parecia, no início, um refúgio relativamente isolado do pânico que começou a atingir o restante do mundo no segundo semestre do ano passado. O Golfo Pérsico está calçado por uma vasta riqueza de petróleo e gás, e algumas pessoas que perderam seus empregos em Nova York e Londres começaram a procurá-los aqui.Entretanto, Dubai, diferentemente de Abu Dabi ou dos vizinhos Catar e Arábia Saudita, não tem seu próprio petróleo, e construiu sua reputação com imóveis, finanças e turismo. Agora, muitos expatriados falam de Dubai como se ele tivesse sido um engodo o tempo todo. Rumores espalham-se rapidamente: a Palm Jumeira, a ilha artificial que é um dos marcos dos empreendimentos imobiliários da cidade, estaria afundando, e quando se abrem as torneiras nos hotéis construídos sobre ela, só saem baratas.Hamza Thiab, um iraquiano de 27 anos que se mudou de Bagdá para cá em 2005, perdeu seu emprego em uma empresa de engenharia há seis semanas. Se não encontrar um trabalho até o fim de fevereiro, terá de partir. "Estou procurando há três meses, e só fiz duas entrevistas", disse ele. "Antes, a gente abria os jornais e via dezenas de empregos. Antes, muitos de nós estavam levando uma boa vida aqui. Agora, não conseguimos sequer pagar nossos empréstimos. Ficamos apenas dormindo, fumando, tomando café e tendo dores de cabeça por causa da situação."

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