Crise alemã prejudica planos de Macron

Enfraquecimento da chanceler Angela Merkel trava iniciativa do presidente da França de relançar integração política e econômica da UE

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS

26 Novembro 2017 | 05h00

A crise política na Alemanha, a mais grave desde o fim da 2.ª Guerra, travou a iniciativa do presidente da França, Emmanuel Macron, de lançar a reforma da União Europeia, um dos pilares de seu programa de governo. O chefe de Estado francês contava com a eleição de Angela Merkel em 24 de setembro, o que aconteceu, mas sem um gabinete de maioria no Parlamento.

O primeiro baque nas chances de reforma aconteceu com a abertura de negociações com o Partido Liberal-Democrata (FDP), que tem membros eurocéticos. Mas, com o fracasso e sem governo, a situação se agrava ainda mais.

O impasse político alemão ilustra com perfeição o grau de interdependência dos principais países da União Europeia. Alemanha e França são usualmente chamados de “motores” do bloco por experts, que apontam a dificuldade de Bruxelas avançar sem um acordo entre Berlim e Paris. 

Com a incerteza em torno de Angela Merkel, essa situação ficou mais flagrante. Em setembro, dias antes da eleição alemã, Macron pronunciou um histórico discurso de uma hora e meia na Sorbonne, em Paris, quando lançou as principais propostas de reforma da UE. 

Entre os projetos está o de flexibilização na integração, o que permitiria que um grupo central de países, formado pelos fundadores do bloco – como Alemanha, França, Itália e Holanda, entre outros – possam avançar juntos, deixando que países mais resistentes às mudanças, como a Polônia, para trás. Além disso, Macron defendeu um governo econômico da UE, com um ministro europeu das Finanças e um orçamento independente. 

Outra medida prevista era a criação de uma força de intervenção militar conjunta, uma iniciativa que contou com o apoio imediato da chanceler. “Vejo de forma positiva as iniciativas em direção a uma Defesa comum e uma Europa na qual nós gerenciaremos juntos a questão da política migratória”, avaliou Angela Merkel, que tem mais restrições às propostas econômicas de Macron. 

Mas essa atmosfera favorável às reformas não contava com um entrave político: ninguém por ora sabe quem será o primeiro-ministro da Alemanha, nem com que força política Merkel governará caso consiga formar uma coalizão. Em setembro, quando Macron lançou o canteiro de reformas, a chanceler era favorita a vencer o pleito. 

“O maior perdedor do colapso das negociações em Berlim é Macron”, estimou ao Estado o cientista político Josef Janning, diretor do escritório de Berlim do Conselho Europeu para Relações Exteriores (ECFR). Para o especialista, as propostas do líder francês correm o risco de serem esquecidas antes que o impasse alemão se resolva. 

Para experts como Janning, a janela de oportunidade, aberta pela eleição de Macron, pode estar se perdendo pela fraqueza momentânea – ou não – de Merkel. A janela tende a se fechar em razão do calendário eleitoral: no segundo trimestre de 2018, a campanha para a renovação do Parlamento Europeu terá início, e o ano pré-eleitoral vai prejudicar os planos da França, pois Bruxelas funcionará em ritmo lento.

A situação é tão concreta que Macron se manteve em contato com Berlim no domingo à noite, horas antes que o presidente do FDP, Christian Lindner, anunciasse o fracasso da coalizão Jamaica – uma referência às cores dos partidos envolvidos. Em nota, o Palácio do Eliseu chegou a se manifestar. “Essa situação só reforça a necessidade para a França de propor, de tomar iniciativas e trabalhar em um projeto europeu ambicioso, que colocaremos em prática com nosso parceiro alemão”, dizia a nota de Macron. 

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