Crise boliviana contamina reunião de países sul-americanos

Débil em substância, o encontro de sábado dos presidentes da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa) vai expor ao mundo os graves dilemas políticos das democracias da região. A segunda reunião de cúpula desse bloco embrionário deverá transformar-se em um palanque para os líderes da esquerda nacionalista eleitos e reeleitos em 2006 se oporem à ordem internacional. Mas, inevitavelmente, acabará contaminada pela mais grave crise política enfrentada pelo seu anfitrião, Evo Morales, presidente da Bolívia. Amanhã, a oposição a Evo pretende radicalizar e denunciar aos presidentes dos países sul-americanos vizinhos a "vocação antidemocrática e beligerante" do governo boliviano que, em sua versão, violou a Carta Democrática da Organização dos Estados Americanos (OEA). No entanto, em vez de apoio, deverão receber censuras da trinca aliada a Evo - os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez, da Venezuela, e o recém-eleito Rafael Correa, do Equador. A denúncia da oposição será feita por meio de um documento assinado pelos governadores de Santa Cruz, de Tarija, de Beni e de Pando, além de outros líderes civis. "A pretensão (do governo Evo) de instalar bases militares em lugares sensíveis do leste da Bolívia, as ameaças nos discursos do próprio vice-presidente, Álvaro García Linera, de empunhar armas, a incitação para seu uso contra o povo que não compartilha a ideologia do governo e o empenho em ditar uma Constituição totalitária são claros exemplos de uma vocação antidemocrática e beligerante", afirma o comunicado. O ponto-chave do conflito boliviano está na decisão do governo Evo de ordenar que as decisões da Assembléia Constituinte, convocada pelo seu governo, sejam tomadas por maioria dos votos. A oposição insiste que a regulamentação da Assembléia prevê a aprovação por maioria de 2/3 dos votos. O impasse levou líderes da oposição, entre os quais 15 senadores, a mobilizarem-se em uma greve de fome, que se arrasta há três semanas. ViolênciaTambém disparou a violência entre militantes governistas e oposicionistas. A expectativa é que na próxima segunda-feira a Assembléia Constituinte opte, definitivamente, pelo seu processo de decisão interna. Nesta sexta-feira, diante das violentas invasões de prédios governamentais na região de Santa Cruz de la Sierra por estudantes contrários à intervenção de Morales no processo de decisão da Assembléia Constituinte, o governo ordenou que todos esses edifícios fossem fechados. Pela manhã, a Casa Pastoral da Igreja e os escritórios do ministro de Obras Públicas foram alvos de ataques armados. Segundo o diretor de Trabalho no Departamento de Santa Cruz, Freddy Siles, a decisão do governo teve o objetivo de evitar "qualquer tipo de confrontação desnecessária", em especial no momento em que Morales recebe seus companheiros da vizinhança. Essas medidas, entretanto, não foram suficientes para amortecer a crise política e os atos violentos, em especial em Santa Cruz, região que concentra boa parte da atividade econômica boliviana e de ferrenha oposição ao governo Morales.

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