Crise de aliados árabes constrange Washington

Governo Obama ainda busca um modo de lidar com protestos por democracia, que põem em risco a estabilidade pró-EUA, na região

Mark Landler, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2011 | 00h00

No momento em que o governo de Barack Obama assiste ao espetáculo de manifestantes irados e tropas de choque brandindo cassetetes da Tunísia ao Egito e ao Líbano, ele busca um plano para lidar com uma região eternamente problemática que hoje gira subitamente para direções perigosas.

No Egito, onde um sólido aliado, o presidente Hosni Mubarak, enfrentou os primeiros protestos contundentes em muitos anos, e no Líbano, onde um governo apoiado pelo Hezbollah está tomando forma, Washington está às voltas com forças voláteis, potencialmente hostis, que se realinharam no panorama político da região.

Foram viradas surpreendentes. Mas até o projeto privilegiado de Washington na região - as negociações de paz palestino-israelenses - se tornou mais intratável nesta semana com a publicação de documentos confidenciais detalhando concessões palestinas oferecidas em conversações com Israel. A revelação torna menos provável que os palestinos façam novas concessões no futuro.

Em entrevistas recentes, autoridades admitiram que os EUA tiveram uma influência limitada sobre muitos atores na região, e a sublevação no Egito, em particular, poderia entravar sua agenda externa. Assim, ele tem avançado cautelosamente, equilibrando as aspirações democráticas da juventude árabe com a estratégia fria e os interesses comerciais. Isso às vezes implica apoiar governos autoritários e impopulares - o que tem jogado muitos desses jovens contra os EUA.

O presidente Barack Obama telefonou para Mubarak na semana passada, após a sublevação na Tunísia, para conversar sobre projetos conjuntos como o processo de paz no Oriente Médio, enquanto enfatizava a necessidade de atender às aspirações democráticas dos manifestantes tunisianos. Obama repetiu esse ponto em seu Discurso sobre o Estado da União, dizendo, "Os EUA estão com o povo da Tunísia, e apoiam as aspirações democráticas de todos os povos", uma referência aos manifestantes no Egito, segundo um funcionário da Casa Branca.

A Casa Branca advertiu o Hezbollah contra a coerção e a intimidação, e autoridades disseram que os EUA poderiam chegar ao ponto de tirar centenas de milhões de dólares de ajuda do Líbano.

Apesar das diferenças importantes entre o Norte da África e o Líbano, as duas situações colocam desafios parecidos. Alguns analistas dizem que os EUA deviam agarrar a oportunidade da Tunísia para promover a democracia em todo o Oriente Médio - reprisando a "agenda da liberdade" do governo Bush e oferecendo a Obama uma rara oportunidade de cumprir as promessas de construir pontes para o mundo muçulmano. Alguns críticos dizem que o governo errou ao colocar o processo de paz no centro de sua estratégia para a região, subestimando uma população árabe insatisfeita. "Se a Tunísia funcionar, poderá ser uma inspiração muito maior para países árabes do que o Iraque jamais foi", disse Steven A. Cook, um bolsista sênior para estudos do Oriente Médio no Conselho de Relações Exteriores. "É uma sorte inesperada. É por isso que eles deviam aproveitá-la ao máximo." / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É CORRESPONDENTE DIPLOMÁTICO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.