Crise de energia abala carreira do governador da Califórnia

A crise do setor elétrico no estado norte-americano da Califórnia, acentuada com o rodízio de apagões na região, praticamente acabou com as aspirações políticas do governador democrata Gray Davis de disputar à presidência dos Estados Unidos no futuro. A opinião é do presidente da consultoria Menlo Energy Economics, Fereidoon Sioshansi. "Desde a sua eleição em 1998, o governador Davis era muito popular, mas muitos consideram que a sua carreira política, depois da crise do setor elétrico, será limitada", afirmou.Para o consultor, se o verão nos Estados Unidos for mais brando e os cortes de fornecimento de eletricidade não forem tão freqüentes, os eleitores poderão até esquecer a crise energética que se acentuou desde o verão de 2000. "Mas a expectativa é de que o verão será quente e que os blecautes sejam freqüentes. Daí é melhor o governador Davis esquecer sua carreira", afirmou.Para o presidente da Menlo Energy Economics, o trauma de blecautes e o sufoco da escassez de energia elétrica tendem a ficar nas mentes das pessoas. No entanto, o consultor ressalta que o caos no setor elétrico californiano começou há muitos anos desde quando o estado decidiu desregulamentar o setor.Sioshansi ressalta que a crise do setor elétrico na Califórnia é resultado de erros feitos pelos políticos e por aqueles responsáveis pela gestão do setor no estado. "Apesar de haver uma seca no noroeste do país, o desastre que estamos observando no setor elétrico da Califórnia não foi causado pela natureza, mas pelos homens", comentou.Cerca de metade das usinas de geração de eletricidade da Califórnia têm mais de 30 anos de operação e muitas são vulneráveis à interrupções operacionais. Não se constrói uma usina com capacidade maior do que 10 megawatts no estado há mais de dez anos. "Essa desregulamentação do setor introduziu enormes incertezas para os investidores sobre as regras do jogo no futuro. Muitos investidores não constróem mais usinas, pois eles até hoje não sabem quem será o dono e qual a política tarifária", explicou.Quando se constrói uma usina na Califórnia, segundo ele, ainda não está claro quem controla, se é o governo estadual, federal ou se a empresa que construiu a planta. O consultor diz que as mesmas incertezas sobre a regulamentação do setor no Brasil, que levaram a AES cancelar investimentos de US$ 2 bilhões, prejudicaram a construção de novas usinas de geração de energia elétrica na Califórnia.Dessa forma o equilíbrio entre demanda e oferta de energia elétrica foi profundamente afetado na Califórnia. "Há certos paralelos entre a situação da Califórnia e do Brasil. Tenho certeza que muitos brasileiros devem estar se perguntando no momento porque o Brasil ainda depende tão pesadamente em hidrelétricas se de tempos em tempos as secas acontecem e prejudicam a geração", afirmou o consultor. "As autoridades brasileiras não prestaram a atenção devida à questão". Segundo Sioshansi, as autoridades na Califórnia somente lidaram com a gravidade do tema e com a necessidade de construir capacidade adicional ao sistema elétrico quando já era tarde demais para evitar os apagões.Segundo o Operador do Sistema Independente da Califórnia (ISO na sigla em inglês), responsável pela gestão da rede elétrica do estado, a população californiana cresce a uma taxa de 500 mil pessoas por ano, o que representa uma demanda adicional de eletricidade de 2% ao ano. Mas somente em 2000, a demanda por eletricidade na Califórnia cresceu 7,1%. Em média, ao longo do ano, a demanda de eletricidade fica entre 38 mil e 41 mil MW, com picos de 45 mil MW nos meses de verão. A Califórnia gera 75% do total de eletricidade consumida, importando o restando dos estados do Sudoeste e do Noroeste.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.