Crise de fronteira é um mito

Questão está sendo usada por políticos para justificar restrições ainda mais duras à imigração

Veronica Escobar / The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2014 | 02h01

A julgar pelo que a mídia nacional divulga, daria para pensar que minha cidade, El Paso, e outras ao longo da fronteira entre o Texas e o México estavam sendo invadidas por crianças - dezenas de milhares delas, algumas com suas mães, chegando da América Central nos últimos meses, explorando uma brecha da imigração para evitar a deportação e exercendo uma pressão fatal nos recursos do Estado fronteiriço.

Não há como negar o impacto desta última onda de imigração ou a necessidade de mais recursos. Mas não há nenhuma crise. Comunidades locais como a minha fizeram um trabalho notável de assistência a esses migrantes. Mas o mito de uma "crise" está sendo usado por políticos para justificar restrições ainda mais duras à imigração, jogar para os eleitores contrários à imigração nas próximas eleições e, sobretudo, ignorar as razões porque tantas crianças estão vindo para cá.

No mês passado, cerca de 2,5 mil refugiados foram trazidos para El Paso após cruzarem a fronteira em outras partes. A comunidade rapidamente se uniu para apoiar as mulheres e crianças e a Annunciation House, a organização que coordenou o esforço. Quando elas são liberadas, a Annunciation House as leva a um abrigo onde têm acesso a banho, um lugar para dormir, refeições e até assistência médica - tudo provido por voluntários e doações privadas.

As famílias dos refugiados também ajudam, com frequência, arcando com os custos de viagens e levando-as para suas casas. Os refugiados se deslocam então para a Flórida, Geórgia, Nova York e outros lugares.

Apesar de o número de refugiados que chega a El Paso ser uma fração do número que chega a McAllen, no sul do Texas, a cadeia de eventos é geralmente a mesma. Como El Paso, o sul do Texas não é o destino permanente destes refugiados. E a resposta dos cidadãos de McAllen também tem sido generosa.

O mesmo não se pode dizer de nossos políticos. O que estamos ouvindo de Austin e Washington é uma resposta quase pavloviana às preocupações com a imigração. Meu governador, Rick Perry, um republicano, anunciou esta semana que estava enviando mil soldados da Guarda Nacional, ao custo de US$ 12 milhões mensais, para reforçar a fronteira.

E, apesar dos esforços do presidente Barack Obama para trabalhar com líderes da América Central para enfrentar as causas básicas da migração, seu pedido anunciado recentemente de US$ 3,7 bilhões, supostamente para lidar com os novos migrantes, contém ainda mais medidas de segurança da fronteira: quase US$ 40 milhões iriam para a vigilância com drones (aviões não tripulados), e quase 30% para transporte e detenção.

No Texas, legisladores estaduais e o Departamento de Segurança Pública estão planejando gastar US$ 30 milhões extras em seis meses para criar um "reforço" dos recursos de aplicação da lei estadual, um gasto que alguns no Legislativo de nosso Estado gostariam que fosse permanente.

Os custos são significativos. Todo dia que detemos um imigrante infantil sem documentos custa à Divisão de Imigração e Alfândega - isto é, ao contribuinte - US$ 259 por pessoa, significativamente mais do que gastamos para educar uma criança num distrito escolar de classe média.

A ironia é que esta estratégia dispendiosa vem de líderes que consistentemente subfinanciam a saúde, o transporte e a educação. E eles ignoram o fato crucial de que as crianças que cruzam nossas fronteiras não estão tentando escapar do cumprimento da lei: estão procurando o cumprimento da lei.

O mais alarmante, porém, é a tentativa de reduzir direitos e proteções criados por uma legislação inteligente e humana.

O debate está centrado na Lei de Reautorização de Proteção de Vítimas de Tráfico de Pessoas, uma lei assinada pelo presidente George W. Bush para prover proteções legais e humanitárias a crianças migrantes desacompanhadas de países que não o México ou o Canadá. A lei foi aprovada com apoio bipartidário, mas a "crise" esta sendo citada agora por alguns dos mesmos legisladores que apoiaram a lei como uma razão para repeli-la ou mudá-la.

Este esforço de retirada de direitos que foram concedidos quando havia um fervor anti-imigração menos significativo não é apenas míope e caro, é antiamericano. Podemos debater a sabedoria de prover maior proteção a crianças centro-americanas do que a crianças mexicanas, mas não pode haver dúvida de que dar abrigo a uma criança que enfrenta violência em seu país que não consegue proteger seus cidadãos mais vulneráveis é o que um país civilizado, com os recursos que possuímos, deve fazer.

Nossas comunidades fronteiriças compreendem isso. Espero que o restante do país, incluindo nossos líderes em Austin e Washington, possam compreendê-lo também. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Veronica Escobar é democrata e juíza de condado em El Paso

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