Crise de reféns na Rússia termina com pelo menos 140 mortos

Pelo menos 90 reféns e 50 de seus seqüestradores chechenos morreram durante a invasão do Palácio da Cultura - famoso teatro moscovita - na madrugada de hoje por forças especiais russas. Foram libertados 750 espectadores - entre os quais todos os 71 turistas estrangeiros. Os rebeldes haviam ocupado o teatro na quarta-feira, tomando a platéia e atores como reféns e exigindo, para sua libertação, o fim da guerra da Chechênia a provas verificáveis da retirada do Exército russo do território.Dezenas de ambulâncias e ônibus foram utilizados para o transporte dos sobreviventes, muitos inconscientes, a vários hospitais da cidade. Eles haviam inalado gás sonífero, usado pelos agentes do Comando Alfa - unidade especial do Serviço de Segurança Federal (FSB) - antes de iniciar a operação de resgate dos reféns. Os agentes, segundo testemunhas, entraram no edifício já disparando seus fuzis.Informações preliminares do FSB indicavam a morte de 67 civis, mas o Ministério da Saúde corrigiu, elevando 90 o total de reféns mortos durante a operação de resgate. "Não pudemos salvá-los. Perdoem-nos", lamentou em pronunciamento por rede nacional de televisão o presidente russo, Vladimir Putin.Alguns dos rebeldes mortos apresentavam perfuração de bala na nuca, indicando execuções sumárias. Três teriam sido detidos, enquanto forças policiais vasculhavam nervosamente as redondezas do teatro em busca de eventuais rebeldes que teriam escapado.O preciso e sofisticado ataque da guerrilha chechena a um ao teatro lotado, um dos mais freqüentados do país a pouco mais de 4 quilômetros do Kremlin (residência oficial do presidente russo), constitui um revés para as autoridades militares russas, que sustentavam ter "quebrado a espinha dorsal da guerrilha, levando-a à beira de derrota total".Segundo Nikolai Patrushev, chefe da FSB, os rebeldes receberam ajuda do exterior, incluindo embaixadas (de países não especificados) em Moscou. Em entrevista à agência russa Itar-Tass, ele advertiu que os rebeldes, com ajuda do terrorismo internacional, poderiam tentar realizar novos ataques em território russo.Segundo o ministro do Interior russo, Vladimir Vasilyev, a operação de resgate dos reféns teve início pouco antes das 6 horas locais. "Havia uma ameaça real à integridade de pessoas inocentes", disse ele, referindo-se à execução de dois espectadores pouco antes pelos extremistas encapuzados e vestindo uniformes de camuflagem.Vasilyev não especificou o tipo de gás sonífero lançado no edifício antes da invasão, para tirar de combate os terroristas - principalmente as mulheres que levavam bombas atadas à cintura. Logo em seguida, veio um ataque fulminante do Comando Alfa. A televisão russa mostrou cenas rápidas da invasão - os agentes quebrando portas de vidro e abrindo fogo. Disparos de fuzil e explosões soavam do interior do edifício - um barulho ensurdecedor, agravado pelo disparo de alarmes de carros no estacionamento do teatro. A TV mostrou o palco do teatro com guerrilheiras mortas e trazendo explosivos não detonados na cintura. Mostrou também cápsulas de gás detonadas e o corpo ensangüentado do líder do seqüestro, Movsar Barayev, tendo quase ao alcance das mãos uma garrafa de conhaque. Ainda segundo a TV russa, muitos guerrilheiros carregavam seringas, sinal de que poderiam ter consumido drogas.Dezenas de reféns eram retirados, muitos deles, inconscientes, nos braços de agentes russos. Minutos depois, o chefe da FSB anunciava o fim da operação. "O objetivo foi alcançado. Os reféns foram libertados", disse ele, fazendo uma pausa antes de se referir ao número de civis mortos. "Nada pudemos fazer para salvá-los", lamentou.A despeito do elevado número de mortos, um sobrevivente concordou que a operação era necessária. "Todos nós estávamos, na verdade, esperando morte certa. Sabiamos que eles (os rebeldes) não nos deixariam sair dali com vida", disse Olga Chernyak, uma sobrevivente.Segundo o Ministério da Saúde russo, nenhuma das mortes está ligada ao gás sonífero e pelo menos nove reféns morreram de problemas cardíacos.

Agencia Estado,

26 de outubro de 2002 | 16h50

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