AFP PHOTO / Federico PARRA
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Crise deixa 3,7 milhões passando fome na Venezuela

Em Genebra, Jorge Arreaza, chanceler venezuelano, faz ofensiva diplomática para impedir que ONU aprove resoluções contra governo de Nicolás Maduro e diz que crise humanitária é desculpa para uma intervenção estrangeira contra o chavismo

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2018 | 05h55

Dados divulgados ontem por agências da ONU apontam que a crise na Venezuela deixou 3,7 milhões de pessoas passando fome. Em 2011, eram 900 mil famintos – número quatro vezes menor. A informação coincide com uma ofensiva que o governo chavista faz no exterior para desmentir que o país viva uma crise humanitária.

A ofensiva inclui encontros com governos aliados para impedir a aprovação de resoluções contra o governo de Nicolás Maduro usando o argumento de que a situação está sendo manipulada para “justificar uma intervenção” estrangeira no país. Nos bastidores, o Grupo de Lima tenta conseguir votos para condenar Caracas no Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Informações confidenciais obtidas pelo Estado revelam que o chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, se reúne hoje com diplomatas de Quênia, África do Sul, Togo, Nigéria, Angola, China, Qatar e Arábia Saudita para pedir que não votem contra a Venezuela – ou se abstenham de votações. 

Segundo a FAO, agência da ONU especializada em alimentação e agricultura, a proporção da população desnutrida na Venezuela caiu de 10,5%, em 2005, para 3,6%, em 2011. Mas, desde então, a alta foi constante. Hoje, o número é de 11,7%.

Apesar dos dados, Arreaza denunciou ontem na ONU a ameaça de uma intervenção em seu país e alertou que a crise econômica está sendo “manipulada” e “promovida” para justificar um “golpe militar”. 

No fim de semana, o New York Times revelou que funcionários do governo de Donald Trump teriam se reunido em segredo com militares venezuelanos rebeldes para analisar um golpe contra Maduro. Em seu discurso, Arreaza disse que o tema de direitos humanos está sendo usado para justificar uma “intervenção multilateral”. 

Ontem, ele se reuniu com a nova chefe de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, depois de quatro anos de um clima de tensão entre a entidade e o governo Maduro. “Denunciamos essas medidas e pedimos, em nome do povo, o fim da agressão política, econômica, ameaça militar e agressão midiática”, disse o chanceler. 

Arreaza garante que a Venezuela não vive uma crise humanitária. “Existe uma crise econômica que é resultado das sanções de EUA e Europa”, afirmou. Em sua avaliação, a pressão pretende “forçar uma mudança de regime”. “Há um golpe militar sendo preparado para perturbar nossa democracia”, denunciou. “Talvez, tenhamos muito petróleo e isso nos coloca como objetivo dos grandes interesses capitalistas.”

Para a ONU, porém, a crise está levando a uma aceleração do êxodo de venezuelanos. O alerta foi lançado por Bachelet. “Cerca de 2,3 milhões de pessoas deixaram o país até o dia 1.º de julho, o que representa 7% do total da população”, disse a ex-presidente do Chile. “Esse movimento está se acelerando.” 

“Na primeira semana de agosto, mais de 4 mil venezuelanos por dia entraram no Equador, 50 mil chegaram à Colômbia em três semanas de julho e 800 por dia estão entrando no Brasil”, disse Bachelet. De acordo com ela, desde que a ONU publicou seu último informe, a entidade continuou a receber informação sobre violações de direitos, incluindo prisões arbitrárias e restrição de liberdade de expressão. “O governo não mostrou abertura para medidas genuínas de responsabilidade”, criticou Bachelet. 

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