Maxim Guchek, BelTA/Pool Photo via AP
Maxim Guchek, BelTA/Pool Photo via AP

Crise do avião em Belarus torna mais tensa a relação entre Lukashenko e Putin

Agora, enfraquecido e isolado, o líder belarusso está perdendo a influência junto ao Kremlin

Anton Troianovski / The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2021 | 05h00

MOSCOU - Ele pode até ser o aliado mais próximo do Kremlin, mas sua lealdade está em dúvida.

Quando Alexander Lukashenko, o excêntrico e brutal líder de Belarus, forçou a aterrissagem de um avião comercial de passageiros, no domingo, para prender um dissidente, ele iniciou uma nova e ainda mais instável fase em uma das mais relações mais complicadas e importantes para a ex-república soviética: a relação entre Lukashenko e o presidente da Rússia, Vladimir Putin.

Os líderes apoiam cada vez mais um ao outro em relação a crises com o Ocidente, mas possuem entre si interesses claramente divergentes. Lukashenko, que governa Belarus há 26 anos, conta com seu punho de ferro para garantir sua sobrevivência no poder. Enquanto Putin quer expandir a influência russa em Belarus, minando a autoridade de Lukashenko nesse processo.

Agora, com a proximidade de uma cúpula com o presidente Joe Biden, prevista para junho, Putin terá de escolher quanto capital político pretende gastar para continuar dando apoio a Lukashenko, cuja ordem de pouso para o voo da Ryanair complicou esforços do Kremlin de suavizar as relações com o Ocidente. Autoridades russas e meios de comunicação favoráveis ao Kremlin ficaram do lado de Lukashenko em meio ao furor, mas os principais oponentes belarussos de Lukashenko acreditam que o apoio do Kremlin é apenas superficial.

“Dentro da chancelaria russa, dentro do Kremlin, acho que as pessoas não suportam Lukashenko”, afirmou em uma entrevista por telefone Franak Viacorka, conselheiro sênior da líder de oposição belarussa no exílio Svetlana Tikhanovskaya. “Ao mesmo tempo, porém, já que não existe ninguém que seja mais pró-Rússia do que Lukashenko, eles preferem mantê-lo próximo por agora.”

Alguns políticos do Ocidente, como o senador americano Ben Sasse, republicano do Nebraska, pediram sanções contra a Rússia em razão do incidente com o voo da Ryanair. Lukashenko, afirmou o senador na segunda-feira, “não vai nem ao banheiro sem pedir permissão para Moscou”.

'Lukashenko não ouve ninguém'

Mas a realidade é mais complicada, afirmam oponentes belarussos de Lukashenko e críticos. Em uma torrente diplomática, esta semana, a oposição belarussa tem pedido a governos ocidentais que mantenham o foco em Minsk - não Moscou - em sua resposta ao incidente, insistindo que Lukashenko não deve ser visto como um fantoche de Putin.

“Lukashenko não ouve ninguém”, afirmou Viacorka, rejeitando a ideia de que o líder teria de pedir permissão ao Kremlin para forçar o pouso do avião da Ryanair. “Ele é uma pessoa absolutamente imprevisível e muito impulsiva.”

Belarus é um país de apenas 9,5 milhões de pessoas, do tamanho do Estado americano do Michigan. Para Putin, porém, é tanto um aliado crucial quanto uma enorme dor de cabeça. Na visão de mundo de Putin, de uma Rússia ameaçada pela crescente agressão da Otan, Belarus é o último Estado-tampão ainda amigável entre Moscou e o Ocidente. Lukashenko, reconhecendo seu papel especial, há anos tira vantagem disso, jogando a Rússia e o Ocidente um contra o outro - exigindo petróleo e gás da Rússia a preços baixos mesmo enquanto estreita relações com União Europeia e Estados Unidos.

E então veio a revolta contra Lukashenko, no último verão, quando manifestações que começaram como uma reação à flagrantemente fraudulenta alegação de que o líder havia se reelegido passaram a reunir centenas de milhares de pessoas enfurecidas com a violência com que a polícia reprimiu manifestantes. O Kremlin hesitou inicialmente, mas depois deu apoio a Lukashenko, oferecendo até o envio de tropas para reforçar a segurança.

Surpresa em Moscou

Autoridades russas pareceram pegas de surpresa no domingo, quando Lukashenko mandou decolar um caça e ordenou que um avião da Ryanair que transportava passageiros entre duas capitais da UE aterrissasse em Minsk, em razão de uma suposta ameaça de bomba. Forças de segurança belarussas prenderam, então, um jornalista dissidente que estava a bordo, Roman Protasevich - que tinha sido colocado em uma lista de “terroristas" porque cofundou uma rede social que incentivou e organizou os protestos do ano passado.

Na segunda-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse a jornalistas em suas declarações diárias à imprensa que não comentaria o incidente com o voo da Ryanair. “Cabe a autoridades internacionais analisar o caso”, afirmou ele.

O Kremlin demorou ainda outras 24 horas para formular sua mensagem final; as ações de Belarus foram “em acordo com regulações internacionais”, afirmou Peskov na terça-feira.

Na quarta-feira, Lukashenko apelava à compaixão da Rússia. Repetindo suas frequentes alegações de que a revolta interna contra ele é uma conspiração do Ocidente,  Lukashenko afirmou que o verdadeiro objetivo dos manifestantes é construir as bases para uma revolução dentro da Rússia. O resultado, alertou ele num discurso ao Parlamento, poderia ser “uma nova guerra mundial”.

“Somos o campo de treinamento deles, um local para experimentos antes de seu avanço para o leste”, afirmou Lukashenko. “Depois de testar seus métodos por aqui, eles vão avançar para lá.”

Companhias aéreas europeias cancelaram voos a Minsk esta semana, seguindo orientações de líderes da UE que manifestaram indignação com o que qualificaram como o “sequestro" de Lukashenko. Mas falando em um salão revestido de mármore no Palácio do Governo, em Minsk, Lukashenko exibiu um tom desafiador, alegando que a ameaça de bomba contra o avião veio da Suíça.

“Não coloquem a culpa em mim!”, disparou Lukashenko, balançando um dedo em riste. “Eu agi legalmente em defesa do meu povo e continuarei agindo assim no futuro.”

Aliado instável

Em Moscou, Lukashenko é visto amplamente como um parceiro decepcionante e instável. Apesar de sua confiança no Kremlin, por exemplo, ele ainda não reconheceu como válida a anexação da Crimeia, em 2014, que muitos russos consideram a maior conquista de Putin em política externa.

“É um erro bem grave pensar que Moscou é capaz de resolver problemas em Minsk com um estalar de dedos”, afirmou Pavel Slunkin, ex-diplomata belarusso que pediu demissão no ano passado em protesto contra as políticas de Lukashenko. “Lukashenko tentará evitar mais dependência de Moscou a todo custo.”

Andrei Kortunov, diretor geral do Conselho Russo de Assuntos Internacionais, um instituto de pesquisas com base em Moscou cofundado pelo Ministério de Relações Exteriores da Rússia, equiparou Lukashenko com o líder sírio Bashar Assad, outro problemático aliado do Kremlin.

Após a Rússia amparar Lukashenko em seu momento de dificuldade, a expectativa do Kremlin era se beneficiar com manobras há muito esperadas. Lukashenko podia ter firmado o acordo para uma base militar russa em seu país ou permitido investimentos russos nos maiores empreendimentos belarussos em termos amigáveis. Mas apesar das três reuniões cara a cara entre Lukashenko e Putin ocorridas desde setembro - e uma quarta é esperada para os próximos dias - nada disso se materializou.

“Poderíamos pensar: o regime foi salvo e deveria pagar por isso”, afirmou Kortunov a respeito de Lukashenko. “Mas não é o que estamos vendo.”

Continuar apoiando Lukashenko poderia custar caro para Putin, alertou Kortunov. Enquanto Putin se prepara para a reunião de cúpula com Biden marcada para 16 de junho em Genebra, autoridades russas telegrafaram avisando que pretendem aliviar a tensão com os EUA. Um motivo é a política doméstica russa: em meio a protestos e descontentamento causados pela estagnação econômica, o Kremlin enfrenta desaprovação pública em relação a aventuras no exterior. / Tradução de Augusto Calil

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