Sarah L. Voisin/Washington Post
Sarah L. Voisin/Washington Post

Crise do café na Guatemala amplia imigração de agricultores

Queda no preço do produto nos últimos anos tem levado os produtores a abandonar suas fazendas na Guatemala para tentar a sorte nos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2019 | 05h00

De sua cabana de madeira no sopé de Sierra Madre, Rodrigo Carrillo pode ver o produto de suas economias de uma vida: um vasto mar verde de cafeeiros, germinando suas bagas vermelhas como pequenos enfeites de Natal.

Aquelas plantas uma vez pareciam o investimento que traria uma mudança em sua vida. Carrillo se uniu a uma cooperativa que vende os grãos para a Starbucks e várias organizações certificadas de comércio. Nas férteis terras altas da Guatemala, não havia meio mais rápido de sair da pobreza do que abastecer os bebedores de café americanos.

Mas, nos últimos anos, o preço do café despencou, deixando Carrillo, de 48 anos, com uma escolha a fazer. No mês passado, ele pegou um mapa amassado da fronteira entre os EUA e o México e apontou para o local à beira do Arizona, onde planeja cruzar a fronteira com o filho de 5 anos. “Estou indo embora em 11 dias. Não há mais dinheiro a se ganhar com o café.”

A Guatemala é hoje a maior fonte individual de migrantes que tentam entrar nos EUA – mais de 211 mil foram detidos na fronteira sudoeste de outubro a maio. No oeste da Guatemala, uma das maiores causas desse aumento é a queda do preço do café, de US$ 4,40 por quilo, em 2015, para US$ 1,78, este ano – uma queda de cerca de 60%.

Desde 2017, a maioria dos agricultores vem operando com perdas, mesmo que muitos vendam seus grãos para algumas das mais conhecidas marcas de cafés especiais do mundo. Um número assustador desses agricultores decidiu migrar.

O presidente Donald Trump culpou a frágil segurança de fronteira no México e as brechas no sistema de asilo dos EUA pelo aumento. O acordo entre México e EUA, anunciado na semana passada, concentrou-se principalmente em dissuadir os migrantes guatemaltecos por meio de uma fiscalização mais rígida. Mas muitos ainda avaliam a jornada – e a queda na renda é uma parte importante desse cálculo.

Mais da metade das 100 pessoas da cooperativa de café de Hoja Blanca migrou ou teve filhos que migraram nos dois últimos anos. Abandonadas, as fazendas de café estão ociosas ao longo das estradas que serpenteiam pela região.

“O que vemos é que o problema da migração é um problema do café”, disse Genier Hernández, chefe da cooperativa de café de Hoja Blanca.

Ele não está sozinho em fazer essa correlação. Ao trabalhar para combater a migração, a Agência para o Desenvolvimento Internacional, dos EUA financiou programas para ajudar os produtores de café. Trump ameaçou impor cortes nesses esforços.

Quando o secretário interino de Segurança Interna dos EUA, Kevin McAleenan, viajou para a Guatemala, em maio, convidou cafeicultores, entre eles Hernández, para se reunirem com ele. Os produtores lhe mostraram uma apresentação em PowerPoint, intitulada “Café e Migração”, com gráficos ilustrando o quanto os agricultores estavam tendo de prejuízo.

Os cafeicultores da Guatemala estão à mercê de um dos mais voláteis mercados de commodities do mundo. Nos últimos dois anos, o preço foi puxado para baixo pelo aumento da produção mecanizada e barata no Brasil – a Arábia Saudita do café –, a força do dólar americano e o aumento da produção em Vietnã, Honduras e Colômbia. Trata-se de uma combinação perfeita que consumiu o valor dos grãos, mesmo com o aumento do preço dos “lattes” e dos “americanos” nas lojas dos EUA.

“Uma grande parte da migração que os EUA estão vendo em sua fronteira sul ocorre em razão da queda do preço do café”, disse Ric Rhinehart, ex-diretor da Specialty Coffee Association of America. “Todos estamos preocupados com o fato de chegarmos ao fim da produção de café como um meio de vida sustentável para grande parte da América Central.” / W.POST, TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.