Crise do coronavírus afeta remessas de emigrantes e ameaça países pobres

Crise do coronavírus afeta remessas de emigrantes e ameaça países pobres

Milhões de trabalhadores perderam o emprego e muitos não têm mais condições de ajudar parentes em regiões subdesenvolvidas

Washington Post, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2020 | 04h00

CAIRO - O caos econômico criado pela pandemia ameaça um pilar crucial da economia de países pobres: as remessas enviadas por migrantes que trabalham no exterior. O Banco Mundial calcula que o total enviado neste ano será de US$ 445 bilhões (R$ 2,4 trilhões), bem menos que os US$ 554 bilhões (R$ 3 trilhões) injetados no ano passado, o suficiente para levar muitas nações na África, na Ásia e na América Latina à devastação - um terço do PIB de alguns países dependem da entrada desses recursos.

Osigan Caseres perdeu o emprego de faxineira no Cairo e não manda mais todo mês os US$ 300 (R$ 1.646) com os quais as filhas que vivem nas Filipinas dão de comer às suas sete netas. Na Somália, Asha Mohamed Ahmed não recebe mais os US$ 400 (R$ 2.195) que sua filha enviava graças ao seu trabalho em um hotel de Minneapolis para pagar as contas da família. No México, Rosy não sabe como comprar remédios para a mãe diabética sem o dinheiro que seu irmão enviava antes de ser posto em férias coletivas em uma fazenda no Estado de Idaho.

Todos eles são as vítimas econômicas do coronavírus. Milhões de pessoas no mundo hoje estão às voltas com a perda do emprego, o fechamento das empresas e o confinamento - e muitas não têm mais condições de ajudar parentes mais pobres em países subdesenvolvidos que dependem das remessas. “Agora, ninguém mais quer me contratar por causa do coronavírus”, queixou-se Caseres, de 47 anos. “Estou preocupada pela minha família e também porque não sei como vou pagar o aluguel.”

O Egito e outras nações do Oriente Médio atraem milhões de imigrantes asiáticos, que mandam para casa uma parcela significativa de seus ganhos. Depois dos EUA, os Emirados Árabes e a Arábia Saudita são as principais fontes de remessas do mundo - a maior parte do dinheiro vai para Índia, China e Filipinas, segundo o Banco Mundial.

Caseres veio para o Egito há oito anos. Desde então, nunca deixou de mandar dinheiro mensalmente - até o mês passado, quando as famílias europeias para as quais trabalhava deixaram o país fugindo do vírus. Agora, espera convencer o senhorio a permitir que adie o pagamento do aluguel, rezando para que a crise acabe logo. “Não sei o que acontecerá”, disse. “Só me resta rezar.”

A cerca de 10 mil quilômetros de distância, na Ilha de Mindanao, nas Filipinas, sua filha Jey também reza. Com um dólar no bolso, contou em entrevista por telefone, que pensava em penhorar o celular e conseguir algum dinheiro para alimentar a filha de 2 anos. “Não tenho como comprar leite”, lamentou.

As Filipinas mandam todos os anos cerca de 2 milhões de trabalhadores ao exterior. Graças à migração, em 2019 ingressaram no país US$ 33,5 bilhões (R$ 181 bilhões) em remessas - um recorde, equivalente a 10% do PIB filipino. A perda desta fonte vital de moeda estrangeira abalará o país, que não atrai muitos investimentos estrangeiros diretos.

E se os trabalhadores demitidos no exterior forem obrigados a voltar às Filipinas isso representará um teste para a economia e os serviços públicos. Centenas de filipinos empregados em navios de cruzeiros já voltaram para casa e estão desempregados e sem nenhuma proteção médica e social. O isolamento da metade do país afetou cerca de 500 mil empregos, segundo o Departamento do Trabalho filipino. 

Na América Latina também há sinais de tensão. Manuel Orozco, economista do Diálogo Interamericano, prevê uma queda das remessas de 7% a 12%, em 2020, em comparação com o ano passado. Em 2018, o último ano para o qual há dados disponíveis, as remessas para a América Latina e o Caribe somaram US$ 85 bilhões (R$ 466 bilhões). Em El Salvador e Honduras, chegaram a cerca de 20% do PIB, segundo o Banco Mundial. Na Guatemala, 12%.

Na semana passada, com o México à beira de mais uma crise econômica, o presidente Andrés Manuel López Obrador pediu aos migrantes nos EUA que não deixem de fazer as remessas aos parentes. “Sabemos que eles também se encontram em uma situação difícil, mas não devem deixar de pensar em seus entes queridos”, afirmou.

No Estado mexicano de Michoacán, o economista Jerjes Aguirre Ochoa calcula que 50% dos 4,5 milhões de habitantes dependam das remessas. Rosy, de 33 anos, que mora em Michoacán, contou que sobrevive graças ao dinheiro enviado por seus quatro irmãos e de uma irmã que moram nos EUA, principalmente de seu irmão Pedro, que cuida de uma fazenda de gado em Idaho. “Falei com ele há alguns dias. Ele disse que não vai mais poder mandar dinheiro, pois o patrão o dispensou.” Ela preferiu não dizer o sobrenome porque seus irmãos vivem ilegalmente nos EUA.

Rosy precisa do dinheiro para comprar comida e remédios para a mãe diabética. Um dos medicamentos custa US$ 1,50 (R$ 7,50) por comprimido. “Estou mais preocupada com a economia do que com o que eles falam para nós sobre o vírus.”

As dimensões do choque econômico estão sendo percebidas em todo o mundo e não é possível compensar a perda das remessas de um país com envios de outros. “Cada país que é fonte de remessas sofreu o mesmo impacto, talvez mais ainda do que os países beneficiados”, afirmou Dilip Ratha, chefe da equipe de economistas do Banco Mundial. “As remessas deverão diminuir consideravelmente durante e depois da pandemia.”

Segundo o Banco Mundial, os envios ajudaram a aliviar a pobreza em países de renda média e baixa, melhoraram a nutrição, contribuíram para uma melhor educação das crianças e para reduzir o trabalho infantil. Todos estes benefícios serão afetados. “A perda de remessas é a perda de uma ajuda financeira crucial para muitas famílias pobres e afeta diretamente nutrição, saúde e educação, o que prejudica a formação de capital humano”, disse Ratha.

A Somália, devastada pela guerra civil, é um dos países mais vulneráveis. Um estudo recente constatou que mais da metade da população urbana recebia remessas do exterior, e uma parcela significativa afirmou que, sem o dinheiro, não conseguirá ter acesso a comida, educação e assistência médica.

Os somalis, principalmente nos EUA, na Europa e na Austrália, enviavam anualmente, em média, mais de US$ 1 bilhão para as famílias, mais do que o país recebe em ajuda dos governos estrangeiros. As remessas constituem 25% do PIB do país. “Os somalis que trabalham no exterior, em geral, recebem baixos salários - como taxistas, funcionários de lojas e domésticos - e foram algumas das primeiras vítimas da pandemia”, afirmou Laura Hammond, professora da SOAS University, de Londres.

Em razão da instabilidade e de uma economia tradicionalmente movida pelo dinheiro vivo, a Somália não tem sistema bancário formal - e as instituições financeiras ocidentais preferem se manter a distância, em razão dos riscos. Isto significa que quase todas as remessas chegam em dinheiro em voos procedentes do Quênia e dos Emirados Árabes. Com o fechamento dos aeroportos, o fluxo parou quase totalmente. 

“Não entra mais dinheiro na Somália”, explicou Guleid Osman, diretor da Associação Somali de Bancos. “É uma dificuldade enorme, embora haja poucos casos de covid-19 no país. Em poucas palavras, estamos enfrentando um momento muito crítico e não vimos ainda nenhuma solução.”

A parada brusca deixou os que dependiam dos recursos do exterior em grave dificuldade, enquanto os operadores em moedas do país, que processam as remessas, afirmam que estão arruinados. “A maioria de nossos clientes começou a retirar dinheiro da conta, e nós estamos ficando sem dinheiro para dar a eles”, comentou Dahir Hassan Abdi, que tem uma casa de câmbio em Mogadiscio.

Depois que a filha perdeu o emprego em Minneapolis, nos EUA, a família de Asha Ahmed ficou sem ajuda financeira. Seu marido, que antes ganhava o sustento da casa, está doente há anos. Asha se disse feliz porque as escolas estão fechadas na cidade de Hargeisa, onde ela mora com cinco de seus filhos, pois assim não terá de pagar as mensalidades ou sofrer a indignidade de tirá-los do colégio. Mas, a cada dia que passa, aumenta sua preocupação. “Não temos mais como proporcionar o básico para viver aos nossos filhos.” / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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