Crise do euro, os vencedores e os perdedores na Europa

Alemanha perde força, tanto na política quanto no futebol

O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h04

Raramente um país que está voando alto é trazido de volta à Terra numa única noite, mas foi justo isso que ocorreu com a Alemanha recentemente. Tanto no futebol como na política, ela havia incorporado uma mistura desconcertante de arrogância e rejeição. A Alemanha se achava a medida de todas as coisas europeias, tanto em termos da Eurocopa de futebol como da União Europeia. Em ambos os casos, ela estava apenas se enganando.

Na mesma noite em que a Alemanha foi arrasada pelos italianos no futebol, durante as semifinais da Eurocopa, a chanceler do país, Angela Merkel, enfrentava os limites de seus próprios poderes na cúpula de líderes da zona do euro em Bruxelas. O curso político da Alemanha desde o começo da crise do euro, há dois anos, a havia deixado isolada e ela não foi páreo para uma aliança entre Itália, Espanha e França.

Aliás, Merkel não teve escolha a não ser aceitar e concordar com as mudanças de longo alcance do novo pacto fiscal da UE, que facilitarão o refinanciamento dos países em crise e de seus bancos. O dogma alemão de "nenhum pagamento sem retorno em desempenho e controle" foi tirado da mesa e a barganha firmada de madrugada foi exatamente o contrário do que ela queria. O pacto fiscal havia sido reduzido a frangalhos antes mesmo de o Bundestag, o Parlamento alemão, aprová-lo naquele mesmo dia.

Em termos de enfrentamento da crise financeira da zona do euro, no entanto, o acordo alcançado em Bruxelas foi bem pouco inovador, porque não transcendeu a ideia de uma administração estreita da crise. Ele não ofereceu uma estratégia para superar a crise no sul da Europa e, portanto, a ameaça à zona do euro não foi removida.

Politicamente, porém, o acordo é uma pequena revolução, porque muda o equilíbrio de poder dentro da zona do euro: a Alemanha é forte, mas não forte o bastante para continuar se isolando por completo dos outros atores de peso da Europa. Decisões que vão contra a vontade de Berlim são perfeitamente possíveis.

Houve uma patente satisfação com a derrota alemã por toda parte, apenas levemente disfarçada por expressões compungidas de solidariedade. Resta ver a plena extensão dos danos políticos que a política de salvamento da Alemanha para a zona do euro, com sua austeridade, desemprego em massa e depressão econômica causou no sul da Europa.

Se Merkel tivesse desejado o acordo alcançado em Bruxelas, o resultado teria marcado uma revisão fundamental da política da crise na zona do euro - e, com isso, seria uma expressão de habilidade política. Em vez disso, foi uma derrota completa para a Alemanha, associada a sua firme negação de que a política alemã reduziu fortemente a influência do país na UE.

Paranoia. No entanto, sua influência claramente se reduziu. Dentro do Banco Central Europeu, ela diminuiu de maneira significativa. O ministro alemão das Finanças não chefiará o grupo do euro e, agora, temos o desastre de Bruxelas. Contudo, a derrota alemã, apesar de ter sido amplamente comemorada, guarda muitos motivos para preocupações.

Primeiro, nem tudo que a Alemanha vem argumentando é errado: a necessidade urgente de consolidação fiscal e de reformas estruturais no médio prazo para aumentar a competitividade dos países em crise não desaparecerá. Igualmente importante, porém, é a redução dos desequilíbrios econômicos e uma coordenação da política europeia para propiciar o crescimento.

Em segundo lugar, a paranoia política está crescendo na direita alemã. Todos supostamente só querem por a mão no dinheiro da Alemanha. O verdadeiro objetivo de nossos parceiros anglo-saxônicos é nos enfraquecer e os mercado financeiros não descansarão até que a Alemanha tenha investido toda a sua riqueza e, com isso, tenha colocado em risco seu sucesso econômico.

Euroceticismo. A Alemanha está sendo traída e o capital produtivo "bom" está novamente sendo contraposto ao capital especulativo "mau". Nas páginas de opinião de alguns jornais alemães, o anticapitalismo está voltando em uma forma nova, que acarreta nada menos do que uma renúncia à Europa e até mesmo ao Ocidente.

Evidentemente, apesar do risco de a direita alemã se tornar mais nacionalista, a história não se repetirá, porque a Alemanha de hoje mudou e o mesmo ocorreu com seu ambiente político. No entanto, uma Alemanha cada vez mais eurocética no centro da UE poderia, em razão de seu grande peso econômico, colocar seriamente em risco o processo da integração da Europa.

Embora isso não coloque em risco os interesses da própria Alemanha, a ação política prática nem sempre é racional, particularmente em tempos de crise grave. O mesmo se aplica, aliás, à França. Exceto que os franceses, diferentemente dos alemães, têm dificuldade em transferir soberania política, enquanto para nós, alemães, a questão toda tem a ver com o dinheiro. Ambos os blocos mentais e políticos estão colocando em risco, em igual medida, o projeto europeu.

Aliás, se o resultado da recente cúpula significa que a França e a Alemanha de agora em diante forjarão alianças uma contra a outra, escondendo-se por trás de expressões de solidariedade, podemos perfeitamente esquecer a Europa. Sem um eixo franco-alemão operante, o projeto europeu não pode ter êxito.

Ambos os lados terão de decidir se querem ou não a Europa - isto é, uma integração econômica e política plena. Economicamente, eles precisam escolher entre uma responsabilidade conjunta com união de transferência e uma nova nacionalização monetária.

Futebol e política. Politicamente, a escolha é entre dar poder a um governo e Parlamento comuns ou retornar à soberania plena. O que sabemos com certeza é que, assim como uma mulher não pode estar meio grávida, o híbrido existente não é sustentável.

Em novembro, Volker Kauder, líder da maioria no Bundestag, bravateou que a Europa, de repente, "está falando alemão". Ele estava errado. Assim como a Espanha (e não a Alemanha) continua sendo a referência no futebol europeu, a Europa fala atualmente, na melhor das hipóteses, um inglês macarrônico. Do ponto de vista de preservar o projeto europeu, tanto melhor. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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