REUTERS/Mohamed Azakir
REUTERS/Mohamed Azakir

Crise do Líbano: O que está acontecendo com 'a Suíça' do Oriente Médio?

Vivendo uma das piores crises financeiras do século desde 2019, segundo o Banco Mundial, o país que já foi considerado sinal de estabilidade na região entrou em parafuso alavancada por crises políticas e pela pandemia

David Leonhardt e Sanam Yar, The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 12h19
Atualizado 14 de outubro de 2021 | 12h38

As contas semanais da mercearia podem equivaler a meses da renda de uma família típica. Os bancos se recusam a permitir que as pessoas retirem dinheiro. Os medicamentos básicos geralmente não estão disponíveis e as filas dos postos de gasolina podem durar horas. Todos os dias, muitas casas não têm eletricidade.

O Líbano está enfrentando uma catástrofe humanitária criada por um colapso financeiro. O Banco Mundial a chamou de uma das piores crises financeiras dos últimos séculos. "Realmente parece que o país está derretendo", disse-nos Ben Hubbard, repórter do The New York Times que passou grande parte da última década no Líbano. "As pessoas viram todo um estilo de vida desaparecer."

É uma reviravolta chocante para um país que foi uma das histórias de sucesso econômico do Oriente Médio na década de 1990. Dada a escala do sofrimento e a modesta atenção da mídia que recebeu enquanto o resto do mundo permanece focado na covid-19, estamos dedicando o boletim informativo de hoje para explicar o que aconteceu no Líbano, com a ajuda de Ben.

Como isso aconteceu?

Como sempre acontece com uma crise financeira, a situação foi crescendo lentamente - e então entrou em colapso rapidamente.

Após o fim da guerra civil de 15 anos no Líbano, na década de 1990, o país decidiu vincular sua moeda ao dólar americano, em vez de permitir que os mercados financeiros globais determinassem seu valor. O banco central do Líbano prometeu que 1.507 liras libanesas valeriam exatamente US$ 1 e que os bancos libaneses sempre trocariam uma pela outra.

Essa política trouxe estabilidade, mas também exigiu que os bancos do Líbano mantivessem um grande estoque de dólares americanos, como explicou Nazih Osseiran do The Wall Street Journal - para que os bancos pudessem cumprir a promessa de trocar 1.507 liras por US$ 1 a qualquer momento. As empresas libanesas também precisavam de dólares para pagar por bens importados, uma grande parte da economia em um país que produz pouco do que consome.

Durante anos, o Líbano não teve problemas para atrair dólares. Mas depois de 2011, isso mudou. Uma guerra civil na Síria e outras tensões políticas no Oriente Médio prejudicam a economia do Líbano. O crescente poder do grupo Hezbollah, que os EUA consideram uma organização terrorista, no Líbano também dissuadiu investidores estrangeiros.

Para manter o fluxo de dólares, o chefe do banco central do Líbano desenvolveu um plano: os bancos ofereceriam termos muito generosos - incluindo juros anuais de 15% ou mesmo 20% - para qualquer pessoa que depositasse dólares. Mas a única maneira de os bancos cumprirem esses termos era reembolsando os depositantes iniciais com dinheiro dos novos depositantes.

Claro, há um nome para essa prática: um esquema Ponzi (pirâmide financeira). "Assim que as pessoas perceberam isso, tudo desmoronou", disse Ben. "2019 foi quando as pessoas deixaram de conseguir tirar seu dinheiro dos bancos."

Oficialmente, a taxa de câmbio permanece inalterada. Mas nas transações do dia-a-dia, o valor da lira despencou mais de 90% desde 2019. A taxa anual de inflação ultrapassou 100% este ano. A produção econômica despencou.

Mesmo antes da crise, o Líbano era um país altamente desigual, com uma elite política rica que se enriqueceu por muito tempo com a corrupção.

Três novos problemas

Três acontecimentos desde 2019 pioraram a situação.

Primeiro, o governo tentou arrecadar dinheiro impondo uma taxa sobre todas as ligações do WhatsApp, que muitas famílias libanesas usam porque as ligações são muito caras. O imposto enfureceu as pessoas - muitas das quais o viram como mais um exemplo de desigualdade imposta pelo governo - e gerou protestos extensos e às vezes violentos. "Pessoas de fora olharam para o país e disseram: 'Por que eu envolveria meu negócio em um lugar como aquele?'", disse Ben.

Em segundo lugar, a pandemia atingiu a já vulnerável economia do Líbano. O turismo, que representava 18% da economia pré-pandêmica, foi atingido de maneira especialmente dura.

Terceiro, uma grande explosão no porto de Beirute, capital do Líbano, em agosto de 2020 matou mais de 200 pessoas e destruiu vários bairros prósperos. "Muitas pessoas não tinham dinheiro para consertar suas casas", disse Ben.

E agora?

O Líbano formou um novo governo no mês passado, pela primeira vez desde a explosão. O primeiro-ministro é Najib Mikati, um bilionário que ocupou o cargo duas vezes desde 2005.

O governo francês e outros estrangeiros pressionaram o governo libanês a promulgar reformas, mas há poucas evidências de que o fará. O governo Biden, focado em outras partes do mundo, optou por não se envolver profundamente.

Muitas famílias libanesas dependem, para sua sobrevivência, de dinheiro transferido de familiares que vivem em outros países. "A única coisa que mantém muitas pessoas é que a maioria das famílias libanesas tem parentes em algum lugar no exterior", disse Ben.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.