Ariana Cubillos/AP
Ariana Cubillos/AP

Crise e violência cancelam 40% das aulas na Venezuela

Diretora de escola pediu aos pais que crianças fiquem em casa se não tiverem condições de se alimentar; professores fogem do país

O Estado de S. Paulo

18 Junho 2016 | 05h00

CARACAS - O crime em alta e o caos econômico que assolam a Venezuela está golpeando o outrora promissor sistema escolar do país, roubando de estudantes pobres qualquer chance de uma vida melhor. Oficialmente, 16 dias de aulas foram cancelados desde dezembro. 

Na verdade, as crianças venezuelanas perderam em média 40% das aulas, calcula um grupo de pais de alunos, uma vez que um terço dos professores falta a qualquer dia para ficar nas filas de abastecimento.

A estudante María Arias guardou os cadernos na mochila, pegou uma banana para dividir com o irmão e a irmã e seguiu para a escola secundária por ruas estreitas de Caracas, ruas tão violentas que táxis não vão ali por dinheiro nenhum. María esperava que pelo menos um dos professores aparecesse.

A primeira aula foi cancelada porque o professor informou que estava doente. A aula de história foi suspensa. Também não houve aula de educação física: o professor havia sido assassinado a tiros semanas antes. Já o professor de espanhol dispensou os alunos mais cedo, obedecendo ao toque de recolher imposto por uma gangue.

“É uma armadilha”, queixou-se a garota franzina de 14 anos. “Você arrisca a vida para ficar quatro horas esperando, sem fazer nada. Mas tem de continuar vindo, pois é o único modo de sair daqui.”

Na escola de María, foram tantos os estudantes que desmaiaram de fome que a diretoria pediu aos pais de alunos subnutridos que os mantenham em casa. E embora a escola tranque o portão bandidos armados dão um jeito de entrar e assaltar os alunos nos intervalos. “Esse país abandonou suas crianças. Quando nos dermos conta das consequências, não haverá como consertar”, disse a porta-voz do Movimento de Pais Organizados, Adelba Taffin.

Até recentemente, as escolas da Venezuela estavam entre as melhores da América do Sul, e o presidente Hugo Chávez elevou a educação a ponto central de sua revolução socialista. Mas em poucos anos a queda no preço do petróleo e erros na condução da economia puseram o país de joelhos, assim como os 7 milhões de estudantes de escolas públicas. Professores fogem do país, a evasão anual dobrou e mais de um quarto dos adolescentes não está matriculado.

A escola de María, de 1.700 alunos, fica entre uma favela e o que já foi um bairro de classe média na capital, Caracas. A escassez castiga ainda mais os estudantes de fora da capital, com escolas fechando às vezes por semanas seguidas.

Abandono. María é estudiosa, a ponto de os colegas a chamarem de “Wikipédia”. Começou o ano com sonhos de se formar contadora e morar em Paris. Seus pais economizaram para comprar-lhe 12 cadernos, um para cada disciplina. Nove meses depois, a maioria das páginas continua em branco.

Sua professora de economia, Betty Cubillan, há poucos dias faltou por uma semana e meia. Disse que comparece para dar aulas à medida que pode, ganhando o equivalente a US$ 30 por mês. “Se não ficar na fila, não como. Quem ficará por mim?”, pergunta.

Cerca de 40% dos professores faltam pelo menos um dia por semana para tentar comprar comida, segundo a Federação dos Professores da Venezuela. A diretora da escola, Helena Porras, pediu a supermercados das proximidades que deixem os professores passar na frente nas filas. E puniu professores que têm aprovado alunos em troca de produtos escassos como leite e farinha.

María já viu assaltos, saques e linchamentos a caminho da escola. Um dia enfrentou um garoto que apontou uma arma para a irmã e exigiu os celulares das jovens. A estudante, com humor negro, comenta que o bilhete do metrô é a coisa mais barata que se pode comprar em Caracas: dá direito a se jogar na frente de um trem e acabar com os problemas. / AP

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