Crise e violência se espalham pela África

Ódio religioso em Mali e na Nigéria, guerras no Sudão, Quênia, Somália e um conflito civil no Congo incendeiam um continente cada vez mais instável

PARIS, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h06

A África nunca foi exemplo de estabilidade, mas as últimas semanas registram um aumento da violência religiosa, étnica e política em várias partes do continente. Conflitos agravaram-se na Nigéria, em Mali, na República Democrática do Congo (ex-Zaire), no Sudão e Sudão do Sul e entre Quênia e Somália.

Enquanto as atenções do mundo estão voltadas para Israel, Gaza e Síria, 15 países da Comunidade Econômica de Estados da África do Oeste (Cedeao) decidiram, na semana passada, enviar uma força-tarefa de 3,3 mil soldados para reconquistar o norte do Mali, controlado pela Al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI) e outros grupos extremistas.

Em março, os fundamentalistas proclamaram a secessão da região norte do país, conhecida como Azawad, e instalaram um regime aos moldes do Taleban: proibiram música, destruíram prédios históricos e instauraram a sharia (lei islâmica). O governo interino, liderado pelo general Dioncounda Traoré, prometeu retomar o norte, recebeu apoio da França e o espectro de uma guerra civil passou a assombrar o Mali.

A violência também recrudesceu na Nigéria, onde os extremistas do Boko Haram lutam contra a influência ocidental. Ontem, militantes islâmicos mataram quatro pessoas, incendiaram uma igreja e destruíram lojas da cidade de Kano, no norte do país. Em outubro, atiradores ligados ao grupo mataram 25 pessoas, a maioria estudantes contrários aos fundamentalistas. O Exército reagiu e matou mais de 70 militantes no último mês.

Outro conflito que se agravou nos últimos dias foi na República Democrática do Congo. Na terça-feira, os rebeldes do M23 tomaram Goma, uma das principais cidades do país e afirmaram que marcharão sobre a capital, Kinshasa, e destituirão o presidente Joseph Kabila.

O M23 rebelou-se porque não foi incorporado ao Exército congolês, segundo acordo firmado por Kabila. A maioria dos cerca de 3 mil combatentes é da etnia tutsi, apoiada por Ruanda, país que tem histórico de intervenções no vizinho: foi com o apoio ruandês que Laurent-Désiré Kabila, pai do atual presidente, derrubou o ditador Mobutu Sese Seko, em 1997. Líderes regionais reúnem-se hoje em Uganda para buscar uma solução diplomática para a crise.

Nos últimos dias, pelo menos duas guerras interestatais - cada vez mais raras em outras partes do mundo - também avançaram na África. Em outubro do ano passado, o governo do Quênia enviou tropas à Somália para perseguir combatentes da milícia Al-Shabab, que respondeu com uma série de ataques terroristas em território queniano.

A guerra aumentou a tensão étnica, causou protestos generalizados, incluindo saques. A polícia queniana passou a realizar batidas em subúrbios de Nairóbi onde predomina a etnia somali, em busca de simpatizantes da Al-Shabab. No início da semana, uma explosão matou 7 pessoas na capital queniana e a violência tomou conta da cidade - já são 60 mortos em uma semana e 150 nos últimos dois meses.

A guerra também não dá trégua entre outros dois vizinhos africanos. Na quinta-feira, o serviço de inteligência sudanês informou que evitou um complô contra o governo, que enviou tanques para ocupar as ruas da capital, Cartum. O anúncio ocorreu horas depois de o Sudão do Sul acusar o vizinho de bombardear a região de Kiir Adem, matando sete pessoas. Os dois países concentram tropas na fronteira e o acordo de paz, firmado em setembro, parece letra morta. / AP

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