Luciana Dyniewicz/ESTADAO
Romina de Grecco, a filha Anabela e o neto Luciano em Los Piletones, Buenos Aires, Argentina  Luciana Dyniewicz/ESTADAO

Crise econômica alimenta volta do populismo na Argentina

O resultado econômico frágil e, principalmente, a inflação se tornaram os grandes inimigos de Mauricio Macri em sua tentativa de se reeleger

Luciana Dyniewicz, Enviada Especial a Argentina, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2019 | 05h30

Uma viela cujo acesso se dá embaixo de um viaduto é o começo de Los Piletones, favela que ficou conhecida na Argentina por receber o apoio e doações financeiras do presidente Mauricio Macri. Desde a época em que era prefeito de Buenos Aires, entre 2007 e 2015, Macri doa parte de seu salário a um restaurante popular que funciona na comunidade. Grande parte dos moradores de Los Piletones se diz grata ao presidente, mas, nem ali, parece que Macri conseguirá conquistar uma votação massiva nas eleições, marcadas para 27 de outubro.

Após um processo de ajuste fiscal gradual pouco exitoso e atingida pela fuga de capitais de países emergentes no ano passado, a Argentina amargará seu segundo ano consecutivo de recessão em 2019 – o terceiro do governo Macri (no primeiro ano de Macri na presidência, 2016, o PIB caiu 2,1%). 

Pesquisa de junho da consultoria Synopsis com 2,2 mil argentinos mostra que 53,1% gostariam de votar em uma força política que não o macrismo, enquanto 34,4% apoiariam o dirigente. A avaliação negativa do governo cresce desde novembro de 2017, quando era de 30,2%. Agora, é de 52,7%.

O resultado econômico e, principalmente, a inflação se tornaram os grandes inimigos do dirigente na sua tentativa de se reeleger. Nos últimos 12 meses, os preços no país avançaram 55,8% – patamar que não havia sido registrado nem no período de sua antecessora, Cristina Kirchner. “Antes (na época de Cristina), eu vivia com a geladeira cheia e sempre tinha dez pesos (o equivalente a R$ 1 hoje) no bolso. Agora, não tenho nada. Preciso escolher entre comprar carne ou iogurte para as crianças. Nem leite para fazer pudim para os netos tenho”, diz a dona de casa Romina de Greco, de 62 anos, que mora na viela .

Romina e o marido vivem com 5.600 pesos por mês (R$ 560), valor que ele recebe de ajuda do governo. Os dois conseguem alguns trocados consertando bicicletas ou enchendo bolas e pneus para as crianças do bairro. Ainda que admita que a situação piorou nos últimos anos, Romina votará em Macri – e parece ser uma das poucas do bairro que ainda o apoia.  

“Ele construiu minha casa. Sou muito grata. Foi em 2013, ele estava na prefeitura e deu dinheiro para as paredes e janelas”, contou. Segundo Romina, antes da ajuda de Macri, ela vivia em uma casa sem banheiro. “Agora tenho chuveiro e água quente.” Questionada se também votará no atual presidente, Anabella, uma das filhas de Romina, responde “vou ter, né?”, sem mostrar entusiasmo.

A doação para a família de Romina veio por meio de Margarita Barrientos, que administra o restaurante popular de Los Piletones, além de outros projetos sociais da comunidade, e tem acesso fácil ao presidente. Sempre que faz campanha em bairros mais pobres, Macri visita Los Piletones e Margarita. Nos últimos dois Natais, fez questão de aparecer em fotos ali. A própria Margarita já admitiu que, com a crise, precisou aumentar o número de refeições servidas diariamente de 2,1 mil para 2,5 mil.

Mauricio Macri chegou a poder no fim de 2015 com promessas ao mercado e à população. Em sua campanha, dissera que adotaria políticas econômicas ortodoxas. Retiraria os subsídios em serviços como energia e transporte implementados por sua antecessora, Cristina Kirchner. Afirmara também que, com ele no comando, os investidores estrangeiros iriam chegar em massa ao país.

Suas políticas fracassaram e, agora, o populismo de esquerda, ao qual havia colocado fim, parece ter espaço para voltar. Na maioria das pesquisas de intenção de voto, Macri vinha aparecendo atrás de Cristina Kirchner. A ex-presidente surpreendeu, há 20 dias, e anunciou sua candidatura a vice, com Alberto Fernández, um político peronista com o qual havia rompido, como cabeça de chapa. A ideia é que Fernández, tido como moderado, atraia votos indecisos. Por enquanto, não está claro o impacto dessa mudança na intenção de votos.

Vizinha de Romina em Piletones, a gari Nancy Brabo, de 52 anos, é a eleitora que o kirchnerismo pretender atrair. Votante de Macri em 2015, está decepcionada. “Tinha muita fé em Macri. Mas agora parece que a Argentina está em um poço e não consegue voltar. Ele prometeu que tudo ficaria bem, mas o dólar disparou. Queria votar nele, mas a situação está muito difícil”, diz ela, que recentemente abandonou o hábito de comer fora.

Nancy percebe que, nos últimos anos, a qualidade de vida em Los Piletones melhorou. Com Macri na Casa Rosada e um de seus afilhados políticos – Horacio Rodríguez Larreta – na prefeitura de Buenos Aires, três parquinhos foram inaugurados e seguem bem conservados. Também foi construído um conjunto habitacional no fim da viela que começa no viaduto e desemboca num lago em que a água, parada, parece não ter oxigênio. Claramente, para os moradores, nada disso é mais importante do que uma inflação controlada.

Sentada ao Sol, na calçada de uma rua recém pavimentada, Nancy conta que não quer ajudar a eleger a chapa kirchnerista. Se diz contra um projeto semelhante ao Bolsa Família, criado por Cristina Kirchner, por considerar que leva as pessoas a não trabalharem. A filha de Nancy, porém, recebe a ajuda para quatro de seus cinco filhos. Ela também não come mais carnes, as substituiu por ensopados.

São argentinos como Nancy que devem decidir o resultado das eleições de outubro. Macri tem cerca de 30% dos eleitores fiéis a ele. Cristina tem mais 30%. Vencerá quem conseguir atrair os indecisos. A questão é que a inflação acelerada pesa mais contra Macri do que os escândalos de corrupção contra o kirchnerismo. 

“A economia é o determinante, sobretudo a inflação. Hoje isso está prejudicando Macri”, diz Daniel Kerner, da consultoria de risco político Eurasia. Para Kerner, se as eleições fossem hoje, a chapa kirchnerista ganharia. Uma mudança nesse cenário depende do controle da inflação até outubro.  “Alberto Fernández é mais moderado e menos populista que Cristina. Mas, durante a campanha, adotará um discurso populista”, diz Kerner. 

Por outro lado, Macri decidiu ser o candidato “anti-populismo”, diz o analista político Rosendo Fraga. Tem buscado apoio internacional para seu programa de estabilização da moeda com a intenção de controlar a inflação, seu principal foco.

 

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Em La Matanza, reduto peronista, Macri enfrenta dificuldades

Segundo maior município da Argentina, com dois milhões de habitantes e cerca de 4% do eleitorado do país, muitos habitantes da cidade estão insatisfeitos com Macri

Luciana Dyniewicz, Enviada Especial a Argentina, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2019 | 05h40

La Matanza é o segundo maior município da Argentina, com dois milhões de habitantes e cerca de 4% do eleitorado do país, o equivalente a uma província de médio porte, como Tucumán. Governada por peronistas – símbolos do populismo na Argentina – desde o retorno da democracia ao país, em 1983, a cidade ficou famosa como a “capital nacional do peronismo”.

La Matanza fica no conurbano de Buenos Aires, onde estão cidades mais pobres e com índices de violência mais elevados que a capital. Ali, trabalha o açougueiro Ángel Daviche, de 44 anos, que vem observando, mês após mês, suas vendas diminuírem. O açougue em que Daviche trabalha vende hoje apenas carne de frango e porco, mais baratas. O negócio já trabalhou com carne bovina, ainda que o produto nunca tenha sido o forte da casa. Há oito meses, porém, não há mais sinais de carne de boi no local.

A situação do açougue reflete a realidade argentina. Apesar de serem apaixonados por churrascos, os argentinos tiveram de reduzir o consumo nos últimos meses por causa dos preços. Segundo dados da Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da Argentina (Ciccra), a média anual de consumo de carne bovina registrada entre janeiro e maio deste ano ficou em 50,5 kg por habitante. É o menor número desde 2011, e representa uma queda de 12% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Na última terça-feira, a algumas quadra do açougue da Daviche, Roberto Basilota, de 61 anos, estacionou seu carrinho de pipoca e doces. Oito meses atrás, Basilota era um pequeno empresário dono de três lojas de colchões. Empregava 11 funcionários, todos recém-demitidos. 

“Há uma grande decepção com a economia. Fazia algum tempo que eu já vendia muito pouco. Colchão é uma coisa cara”, diz. Suas economias, cerca de 300 mil pesos (R$ 30 mil), foram todas para pagar os direitos trabalhistas dos empregados. Agora, vive com a aposentadoria de 11 mil pesos (R$ 1,1 mil) da mulher e consegue mais uns 700 pesos por dia com as vendas do seu carrinho. A filha de Basilota, que ajudava em uma das lojas, está desempregada e o genro, trabalhando como motorista de Uber. 

Apesar da deterioração do seu padrão de vida no último ano, Basilota diz que votará em Macri. Para ele, os escândalos de corrupção do período Kirchner pesam mais que a crise econômica do País – pessoas como Basilota são a esperança de Macri.

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