Crise econômica deixa argentinos perplexos

Mais do que irritação ou desânimo, o sentimento dos argentinos é de perplexidade. "Eu que estudo essas coisas, posso explicar, mas minha irmã, por exemplo, não entende por que ela não pode viajar para o exterior como sonhou 25 anos atrás, quando começou a carreira no magistério", diz o sociólogo Atilio Boron. "Para o argentino comum, a dificuldade econômica não tem lógica, diante da riqueza de recursos naturais e humanos", arremata o escritor Marcos Aguinis. A incompreensão é agravada por um quase consenso em torno do modelo econômico. As críticas ao chamado neoliberalismo, feitas pela esquerda, parecem ocupar um espaço mais marginal do que nos outros países da região. "A esquerda culpa a globalização, mas o povo, não", diz o pesquisador Manuel Mora y Araujo. "Então, se o modelo está certo, mas as coisas não melhoram, os argentinos concluem que o país não tem jeito mesmo." O mais irônico da situação econômica da Argentina - e das constantes refregas com o Brasil e com o Mercosul por causa das desvalorizações do real e de seus efeitos sobre as exportações - é que, por mais que tentem encontrar culpados externos, os argentinos sabem que criaram a armadilha em que caíram. O trauma da hiperinflação os levou a buscar a solução mais radical, que os livrasse para sempre do mal. Agarraram-se ao dólar, decretaram sua paridade com o peso e assim renunciaram à política monetária - e cambial, até duas semanas atrás, quando o ministro da Economia, Domingo Cavallo, numa demonstração de criatividade, introduziu o euro no câmbio comercial. A economia se encolhe há três anos e o governo não dá mostras - ou pelo menos é o que acham os argentinos - de saber o que fazer para mudar o quadro. As dívidas dos argentinos estão em dólares, e a desvalorização do peso seria um desastre de proporções tão devastadoras que o plano de conversibilidade está protegido por um tabu. O fato de Cavallo, "pai da conversibilidade" (criada quando ele era ministro de Menem) ter efetuado a mudança no regime cambial é o principal motivo pelo qual não houve uma corrida para trocar pesos por dólares, aponta a consultora de opinião pública Graciela Coatz-Römer.

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