Crise econômica e os desafios da Grécia

A difícil situação vivida pelo país pode levar à fuga de jovens

Vicky Pryce, Prospect Magazine, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2011 | 00h00

Atualmente, quem gostaria de ser jovem na Grécia? Quando deixei Atenas e parti para Londres, aos 17 anos, era um dos muitos jovens abandonando o país. Em parte por não gostar do regime autoritário dos coronéis, que governaram a Grécia de 1967 a 1974 e ficaram particularmente impopulares junto aos jovens, quando proibiram certos tipos de música e ordenaram o corte de cabelo de alunos que usassem cabelos compridos.

A decisão de sair do país também foi provocada pela medonha situação econômica que o regime militar ocasionou. No meu caso, o "boicote" quase levou a agência de turismo de meu pai à falência, e quando cheguei na Grã-Bretanha, precisei achar um emprego para pagar meus estudos. Mas os jovens em geral voltavam para casa, com frequência conseguindo ingressar no funcionalismo público, um setor inchado, mas que oferecia emprego vitalício e aposentadoria em idade precoce. Não mais. A Grécia contabilizou uma queda de mais de 4% do seu PIB em 2010. Este ano, segundo projeções, a economia deve crescer entre 2% e 3%. O risco é que os jovens novamente comecem a deixar o país.

Portanto, não é surpresa o fato de os gregos questionarem as medidas de austeridade e se perguntarem se vale a pena a penúria provocada pelas reformas exigidas pelo FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia. É claro que a Grécia tem de adotar algumas medidas. O tamanho do déficit, após anos de uma expansão descontrolada dos gastos do governo e do setor privado, só veio à tona após as eleições de 2009. O atual premiê, George Papandreou, cujo pai e avô também foram primeiros-ministros, é um político respeitado pela comunidade internacional. Mas ele colocou em risco a sua popularidade, internamente, ao tentar reduzir o déficit de 15% do PIB em 2009 para menos de 3% em 2014, uma condição para a Grécia obter a ajuda financeira em maio de 2010.

O país poderia ter dado um calote da dívida. Mas as consequências para a economia e os bancos seriam enormes. E também afetaria outros bancos europeus que fizeram empréstimos para empresas gregas ou compraram títulos públicos acreditando que a dívida dos países da zona do euro tinham risco igual. Uma ilusão que se desfez. Mas, na ausência do calote, a Grécia não teve outra saída senão aceitar aquela ajuda, pois não conseguiu tomar emprestado nos mercados em condições acessíveis.

Quais são as opções? A situação fiscal do país é difícil. A Comissão Europeia espera que o déficit do país em 2010 seja de 9,6% do PIB, caindo para 7.6%, uma taxa ainda muito alta, em 2012. Embora o governo venha cortando gastos e elevando impostos para reduzir o déficit, o crescimento continuará débil. As perspectivas no longo prazo dependerão do sucesso das reformas, mas a situação da dívida nacional pendente ainda vai se deteriorar por algum tempo, e a previsão é que ela passe de 140% do PIB em 2010, a maior da Europa, para 156% em 2012, segundo a Comissão Europeia. A partir daí, mesmo que o país consiga contabilizar um superávit no seu orçamento, os gastos com o pagamento da dívida após 2013, quando a ajuda atual terminar, provocarão aumento do endividamento no geral. E os mercados deverão continuar cobrando um ágio de risco sobre a dívida grega. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ECONOMISTA

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