Patricia de Melo Moreira / AFP
Patricia de Melo Moreira / AFP

Crise econômica é uma lembrança distante em Portugal

Consolidação econômica conduzida pelo socialista António Costa depois das reformas impostas pelo governo anterior resultaram em crescimento econômico de 3,5% em 2017 e 2,4% em 2018; 2/3 dos 50 mil portugueses que deixaram o país na crise já retornaram

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2019 | 06h00

COIMBRA, PORTUGAL - "Fui embora chorando", lembra Liliana Inverno, forçada a deixar Portugal no pior momento da crise. De volta há pouco tempo, ela aproveita uma recuperação econômica que é a principal bandeira do socialista Antonio Costa para as eleições deste domingo, 6. 

"Não tive escolha", disse a professora de linguística de 40 anos, que acabou de encontrar uma vaga na Universidade de Coimbra, uma cidade universitária no centro do país, depois de viver e trabalhar sete anos na China

O exílio foi causado pela crise da dívida em 2011 que forçou Portugal a pedir ajuda à União Europeia (UE) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em troca de um plano de resgate de € 78 bilhões, a direita então no poder prometeu aplicar um ajuste rígido. 

Liliana perdeu o emprego na Universidade do Algarve como resultado de cortes drásticos no ensino superior e seu marido, funcionário temporário no setor de entretenimento, "acumulava salários não pagos". 

Desesperada, ela correu para o exterior e encontrou trabalho em 2012 em um centro de treinamento em Macau, uma ex-colônia portuguesa devolvida à China em 1999. 

Quando recebeu uma proposta de trabalho em Portugal no início deste ano, não hesitou - embora o salário seja um terço do que ela ganhava em Macau. "Assim que confirmaram minha nomeação, fizemos as malas", conta.

'Virando a página da austeridade'

No poder desde 2015, o socialista Antonio Costa, grande favorito das legislativas deste domingo, prometeu com seus aliados da esquerda radical "virar a página da austeridade", em um país onde o desemprego atingiu um pico de 17% em 2013. 

Costa aproveitou o renascimento iniciado sob o governo de direita e os efeitos das reformas impostas pela troika (UE, FMI e Banco Central Europeu) e consolidou a recuperação econômica, adotando medidas como aumento dos salários dos serviços públicos e aposentadorias, que sofreram fortes cortes. 

O resultado dessa política foi um crescimento de 3,5% em 2017 e 2,4% em 2018. Já o desemprego caiu pela metade e voltou ao seu nível anterior à crise (6,4% em julho).

"Este contexto excepcional é o sonho de todo governo", sintetiza o economista João Duque, para quem a economia portuguesa desfrutou da situação europeia e do "boom do turismo", que representa cerca de 10% do PIB. 

Mas, determinado a continuar a consolidação das contas públicas, o governo que contra com o ministro das Finanças Mario Centeno, presidente do Eurogrupo, "aumentou os impostos indiretos e cortou os investimentos públicos", acrescenta esse professor da Universidade Técnica de Lisboa. 

Assim, o déficit, que atingiu 11,4% do PIB em 2010 e ainda era de 4,4% em 2015, seria de apenas 0,2% neste ano, algo nunca visto desde o retorno da democracia, em 1974.

Meio milhão de exilados

Em Coimbra, a universidade fundada no século 13 contratou cerca de 30 professores, como Liliana Inverno, para o ano letivo de 2019-2020. 

Como Liliana, cerca de 50.000 portugueses deixaram Portugal durante a crise. Segundo estimativas oficiais, cerca de dois terços já retornaram. 

Antonio Costa não deixa de celebrar o fato de que em 2017 "o saldo migratório foi positivo pela primeira vez desde a crise", o que constitui um sinal da boa saúde econômica do país em sua opinião. 

O número de imigrantes que vivem em Portugal aumentou 21% em 2017, de acordo com estatísticas da OCDE citadas esta semana pelo governo. 

Mas, apesar da bonança, "as pessoas têm problemas para chegar ao final do mês", diz Liliana, que se queixa em particular do aumento dos preços dos imóveis. 

As expectativas criadas pelo governo socialista também decepcionaram algumas categorias profissionais, levando no inverno passado a uma série de greves no serviço público. / AFP

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