Crise econômica freia diplomacia à base do petróleo venezuelano

O sonho do presidente Hugo Chávez, morto em março, de utilizar a riqueza do petróleo venezuelano para propagar a revolução na América Latina vem desmoronando sob o peso de uma crise econômica que obrigou seu sucessor a reduzir sua generosa ajuda externa.

ANÁLISE: Associated Press, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2013 | 02h07

Sinais de queda da influência do país na região estão mais aparentes. No início de novembro, a Guatemala abandonou a aliança Petrocaribe, criada por Chávez, alegando não ter obtido as taxas de financiamento prometidas pela Venezuela. Nas últimas semanas, representantes do Brasil e da Colômbia mantiveram reuniões com venezuelanos para cobrar o pagamento de dívidas vencidas. Embora a Venezuela já tenha atrasado pagamentos anteriormente, a recente crise financeira é mais severa e as perspectivas econômicas são mais incertas, como jamais observado nos 15 anos de governo chavista.

A razão é a dependência do petróleo, que representa 95% das exportações do país. Embora a Venezuela possua uma das maiores reservas do mundo, a produção diminuiu drasticamente nos últimos anos. Os preços globais também caíram. O resultado é a escassez de reservas cambiais no país, com queda de 27% este ano, segundo o Banco Central da Venezuela (BCV).

Para cumprir suas obrigações, o governo tem reduzido subsídios, investimentos e os programas de ajuda externa que foram pilares do projeto de Chávez para acabar com a influência do "império" americano na América Latina, num total de US$ 100 bilhões desde 1999.

Ao mesmo tempo, o governo de Nicolás Maduro tem de admitir uma mudança de política no sentido da austeridade. Dados do BCV indicam que os créditos comerciais externos caíram US$ 1,7 bilhão nos primeiros nove meses deste ano, em comparação com um montante três vezes maior no mesmo período do ano passado.

"É muito mais fácil reduzir a ajuda externa do que cortar salários ou demitir trabalhadores", disse Francisco Rodriguez, economista do Bank of America-Merrill Lynch, em Nova York.

O país mais afetado pela contenção da ajuda externa é a Nicarágua, que tem recebido US$ 600 milhões por ano de Caracas. A partir de 2014, o governo de Daniel Ortega financiará mensalmente US$ 30 a título de transferência de recursos para nicaraguenses pobres que recebiam o dinheiro da Venezuela. A construção da maior refinaria de petróleo da América Central também está paralisada em razão da retração do investimento venezuelano.

Para analistas, Caracas sente agora as dificuldades financeiras que vêm piorando há sete meses. Diante dos gastos crescentes provocados por uma inflação de 54%, a agência estatal que administra os dólares do país restringiu o acesso a divisas para pagamentos a fornecedores estrangeiros. Com isso, o dólar no câmbio negro custa 10 vezes mais do que a taxa oficial, o que levou a uma escassez recorde de todo os tipos de produto. Os parceiros comerciais estão ainda mais preocupados depois de o governo propor pagar as importações com títulos emitidos pela estatal PDVSA.

Os atrasos colocam em maior risco países menores, como Panamá e Colômbia. Severo Souza, que representa os exportadores nas conversações com o governo Maduro, calcula que a Venezuela deve aos panamenhos cerca de US$ 1 bilhão. "A conduta de Maduro tem surpreendido ativistas, acadêmicos e parte da mídia internacional que simpatizavam com Chávez e esperavam um governo mais moderado", disse o analisa político Carlos Romero, professor da Universidade Central da Venezuela.

Com certeza, a Venezuela não está se dirigindo para o abismo. No mês passado, Maduro ordenou a criação de uma universidade de medicina na Venezuela para formar médicos de toda a América Latina. Ele apresentará a proposta este mês na cúpula da Aliança Bolivariana, formada por nove países de linha esquerdista. "No entanto, será difícil Maduro tentar alguma coisa muito audaciosa novamente", disse Juan Gabriel Tokatlian, diretor do departamento de relações internacionais da Universidade de Torcuato di Tella, em Buenos Aires. "As opções estratégicas da América Latina não mais passam por Caracas", acrescentou. (Tradução de Terezinha Martino)

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