Crise egípcia alimenta a violência no Sinai

Ataque a comboio militar deixa 25 mortos e mostra que região está à mercê de radicais

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2013 | 02h02

Em tempos de paz, o Sinai, na fronteira entre Egito e Faixa de Gaza, já é a área mais instável do país. Com a crise política que eclodiu com o golpe militar de 3 de julho e a derrubada do islamista Mohamed Morsi da presidência, a província desértica tornou-se um barril de pólvora prestes a explodir. Desde então, 75 policiais e soldados foram assassinados.

Desmilitarizada por um acordo entre israelenses e egípcios, a região virou hospedeira de grupos extremistas islâmicos que agora ameaçam lançar uma jihad contra o governo interino de Adli Mansour.

O último ataque de grandes proporções foi realizado na segunda-feira, quando 25 policiais foram mortos. De acordo com o Ministério do Interior do Egito, um comboio que transportava tropas foi interpelado em um dos numerosos postos de controle da região, em Abou Tawila, situado entre as cidades de Rafah, junto à fronteira com a Faixa de Gaza, e El-Arish, a capital do Sinai do Norte.

A partir de então, duas versões vieram a público: a primeira, oficial, a de que os policiais foram retirados dos veículos, postos ao chão e executados. A segunda, mais de acordo com a forma de atuação das milícias que realizaram operações no passado, diz que o grupo foi atacado com lança-foguetes que destruíram os veículos sem deixar sobreviventes. Seja qual for a versão real, o fato é que policiais e militares são alvos regulares da ira dos extremistas islâmicos da região, em especial quando estão agrupados, seja em guardas de barreiras, seja em casernas invadidas e roubadas pelos bandos armados.

A região é sensível porque, após o Tratado de Camp David e o acordo de paz assinado por Israel e Egito em 1979, a península foi desmilitarizada em 1981. Na região, segue operando uma força de observação das Nações Unidas, que asseguram o cumprimento do acordo. O efeito colateral, segundo observadores internacionais, é de que o Sinai aos poucos se transformou em uma zona sem lei.

"Grande parte dos habitantes da região são tribos beduínas nunca integradas ao tecido social no Egito. O Sinai é uma terra de ninguém, porque o governo do Egito não tem controle sobre a região", explicou ao Estado um embaixador ocidental. "Grupos militantes de todos os tipos estão instalados na região, como a Al-Qaeda, por exemplo. E é muito difícil identificar que grupos são esses."

Com a derrubada do presidente eleito Mohamed Morsi, líder do Partido Justiça e Liberdade, braço político da Irmandade Muçulmana, o presidente de facto, Adli Mansour, vem usando os ataques contra as forças de ordem e a presença de jihadistas na região para justificar a "guerra ao terror" que seu governo lançou contra os militantes que lutam pelo retorno do islamista ao poder.

Para analistas políticos, o Sinai é uma zona sem lei, a prova de que o Exército egípcio não é mais capaz de assegurar a segurança de todo o território. Para retomar o poder sobre a região, desde o ataque de segunda-feira todos os acessos do Cairo ao Sinai foram bloqueados pelas Forças Armadas.

"Retomar para o Estado egípcio é vital neste momento de transição demarcar sua autoridade sobre todo o território e sobre as regiões de fronteira, caso contrário passará a mensagem ruim de que o governo está falhando", diz o cientista político Emad Sharim, da Universidade Americana do Cairo. Já que enfrenta esse desafio, é conveniente às Forças Armadas tentar associar os movimentos jihadistas da região à Irmandade Muçulmana. "O governo e a mídia estatal e pró-golpe tenta demonizar a Irmandade, pintando-a como um grupo armado e ameaçador. É muito difícil acreditar nessa mensagem."

Temor. Por telefone, o Estado contatou moradores ou egípcios originários de Rafah e El-Arich. Os relatos que fazem são de uma região sitiada, pressionada pela ação de células terroristas e a recente presença ostensiva do Exército no cerco ao Sinai. Em Rafah, bairros como Sheikh Zweied são território minado, mas toda a cidade sofre sob ameaça permanente, em especial à noite.

Para Hazem El-Sissi, membro da Associação Nacional pela Mudança (NAC), movimento jovem, liberal e pró-golpe, além da atividade jihadista, o Sinai - como o Egito inteiro - vem sendo alvo da revanche de famílias que perderam próximos nos conflitos políticos. "Quando alguém morre nos confrontos porque um policial atirou, as famílias do interior do país entender que têm o direito de se vingar, atacando-os", explica Sissi. "A Irmandade e os salafistas podem até insuflar, mas quem ataca muitas vezes são famílias se vingando."

Com isso, a maior atividade econômica da região, o turismo em Sharm el-Sheikh ou os roteiros religiosos, está abandonado. "Eu sinto o sofrimento dos homens de negócio do Sinai por causa da instabilidade política e da presença de extremistas", diz Abdalla Kandil, presidente da Câmara de Comércio do Sinai Norte.

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