Crise em Damasco, tensão em Beirute

Nove meses de insurgência contra ditadura de Bashar Assad acentuaram as divisões no Líbano, historicamente sob forte influência da Síria

É JORNALISTA, JOSH, WOOD, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, JOSH, WOOD, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2011 | 03h04

Nove meses após o levante contra o regime de Bashar Assad, na Síria, o conflito afeta cada vez mais a política libanesa, à medida que antigas divisões históricas se aprofundam e as divergências crescem. Em termos políticos, o Líbano há muito está dividido sobre a Síria, que ocupou partes do país de 1976 a 2005. Os dois principais blocos políticos divergem quanto ao apoio prestado à ocupação militar síria na época.

O Hezbollah, que lidera a coalizão "8 de Março", adotou a retórica da linha dura de seus aliados em Damasco sobre o levante. Mas, ao fazê-lo, provocou certa dissensão na aliança. O partido que lidera a coalizão "14 de Março", o Movimento do Futuro, tenta usar a solidariedade ao levante na Síria como instrumento para obter apoio, enquanto busca se recuperar da perda do controle do governo em janeiro. "O que ocorre na Síria acentua a polarização do Líbano e coloca o país em perigo", disse Hilal Khashan, professor na Universidade Americana de Beirute.

Grupos da aliança 8 de Março, tipicamente favorável à Síria, que atualmente controla o governo, estão "sentindo o enfraquecimento do regime sírio, e começaram a reavaliar as próprias posições, tornando-se contrárias à Síria ou radicalmente a favor dela", disse Imad Salamey, professor da Universidade Libanesa-Americana.

A mais nítida mudança de posição no país foi a de Walid Jumblatt, líder do Partido Socialista Progressista, a principal facção da minoria drusa. Jumblatt permaneceu em grande parte calado sobre os acontecimentos na Síria no início do levante, mas depois manifestou seu apoio à oposição síria. "Neste momento, olhando para frente, Jumblatt não acredita que o futuro do regime sírio seja sustentável", disse Salamey.

O Hezbollah manifestou forte apoio a seus aliados em Damasco. Embora o partido tivesse reconhecido a necessidade de reformas na Síria no início do levante, o grupo agora fala dos acontecimentos usando em grande parte as mesmas palavras do regime sírio. Em entrevista gravada em outubro na TV do Hezbollah, Al Manar, o líder do grupo, Hassan Nasrallah, falou do levante na Síria como complô externo e insurreição armada.

Damasco encontrou no Hezbollah um raro amigo numa região que em grande parte condena a Síria ao ostracismo. Em uma votação realizada em novembro na Liga Árabe para a suspensão da Síria, o Líbano foi o único país, além do Iêmen, a votar contra a moção. Houve sinais divergentes sobre a possibilidade de o Líbano impor sanções à Síria. Embora alguns integrantes do gabinete desmentissem que o Líbano imporia sanções, na quarta-feira o ministro da Economia afirmou que as adotará.

À medida que o conflito progride na Síria, as declarações do 14 de Março se tornam mais audaciosas. "No Líbano, o muro do medo - o medo de que os sírios possam causar muito dano a qualquer grupo libanês que se oponha a eles - foi derrubado", disse o professor Khashan. Para o Movimento do Futuro, que sofreu graves golpes com a perda do controle do governo pelo 14 de Março, e com a ausência física do seu líder, o ex-premiê Saad Hariri, o levante sírio representou uma oportunidade de revigorar sua base de apoio.

Em um comício do Movimento do Futuro, no domingo, algumas pessoas agitavam a bandeira da oposição síria: o tricolor verde, branco e preto com três estrelas vermelhas, anterior à era do Partido Baath. Os políticos do partido aproveitaram a oportunidade para atacar o regime sírio e seus aliados no Líbano. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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